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Quem mora em edifício sabe bem do que vou falar.
Geralmente é pela área
de serviço que escutamos
os sons mais estranhos e as conversas
mais bizarras vindas dos apartamentos
vizinhos. Sei lá, deve ser
por causa da conformação
arquitetônica, mas qualquer
coisa que se cochiche parece que
é propagada por todo o prédio,
amplificada dez vezes, e equivale
a publicar nossos segredos na pauta
da reunião de condomínio.
Pois eu acabara de dar comida aos
meus gatos quando reconheci a voz
do morador do andar de cima, aparentemente
falando sozinho. Depois me toquei
que ele estava ao interfone (já
que ninguém respondia) e,
sem demonstrar grandes alterações
no tom de voz, dizia mais ou menos
assim:
Alô! É do novecentos e três? Quem fala? Cremilda? Ah, Cremildes.
Bom-dia, dona Cremildes, aqui é o seu vizinho do setecentos e três, o Ademar, tudo bem com a senhora? (...) Eu sei que a senhora está fazendo o almoço, mas é assunto rápido, é sobre o seu tapete. Como que tapete? A senhora não tem um tapete de pele de urso? (...) Pois é, este seu tapete, que a senhora provavelmente estendeu na janela pra pegar um solzinho, acabou de voar janela abaixo e caiu lá no playground. É, no playground. (...) Eu sei que a senhora vai mandar a faxineira buscar, só que o problema é um pouquinho mais grave: é que, na passagem, o seu tapete derrubou a minha bochecha-de-velho. (...) Cirurgia plástica? Não, dona Cremildes, eu não sou velho nem bochechudo, me refiro à salacia polyanthomaniaca, que é uma planta ornamental da família das hipocrateáceas, popularmente chamada de bochecha-de-velho. (...) Isso mesmo, a pobre plantinha se estabacou lá embaixo junto com um vaso de porcelana de vinte e dois centímetros de altura por dezoito de diâmetro. (...) Tudo bem que foi a faxineira quem colocou o tapete na janela, mas a senhora é dona do tapete e dona da faxineira, se é que faxineira tem dono. Como e daí? Eu acabei de perder uma planta e um vaso por causa do seu tapete. (...) Quem é que está queimando? Ah, o feijão. (...) A planta custa quarenta e oito reais e o vaso doze. Sessentinha. (...) Não vai pagar? Como não vai pagar? Tudo bem, dona Cremildes, então eu fico com o seu tapete de pele de urso até segunda ordem. Passar bem!
Na seqüência, ouvi a batida do interfone no gancho, uma porta se abrindo e, segundos depois, ecos na escadaria do prédio, de passadas nervosas, em direção ao playground. Lá embaixo, preso na gangorra, um cafona, porém, valioso, tapete de pele de urso.
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