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Um mergulhador achou uma aliança no fundo de um riacho. Começava assim a história de amor e mistério da matéria veiculada num desses telejornais da hora do almoço. Uma aliança comum, nem muito grossa nem muito fina, de ouro maciço, em cujo interior estavam gravados o nome de uma mulher e uma data: Carmem Lúcia, 1974.
Na divertida enquete pelas ruas da cidade, muita gente deu seu palpite à jornalista da emissora. Uns diziam que a moça cometera adultério, o que fez com que seu marido, num momento de fúria, arrancasse o anel do dedo anelar da mão esquerda e o atirasse ao córrego onde se conheceram. Outros (outras, na verdade) garantiram que o esposo de Carmem Lúcia escondera a aliança ao deparar com uma linda jovem que se banhava na cachoeira, porém, durante o galanteio, distraído, deixou a aliança rolar pelas pedras até alcançar a água e nunca mais a recuperou.
Como bem sabemos, o homem carrega o nome da mulher (e vice-versa) na jóia matrimonial, portanto, aparentemente, foi ele quem perdeu a aliança ou se desfez dela. Mas apenas aparentemente. Nenhum repórter do telejornal veio ainda me entrevistar, pois preferi, antes, por escrito, revelar aqui a solução para o caso. E, ao contrário do que todos imaginam, não há nada de romântico em seu desfecho.
Carmem Lúcia contraíra núpcias a contragosto. Na época, recém-saída da adolescência, deixou-se influenciar pelos pais e, ainda que não quisesse admitir, pelo saldo bancário do noivo, que acabara de herdar a frota de táxis da família. Por mais que se esforçasse, não conseguia sentir amor pelo homem que agora dormia ao seu lado. Tentava relevar o cheiro de suor constante, o vício pelo cigarro e pelo jogo, a bebedeira diária, a calvície precoce, a flacidez do abdômen, o estrabismo, os dentes podres e até a gagueira. Só não podia admitir a sujeira debaixo das unhas.
Numa tarde de domingo, mais precisamente no inverno em que o casamento completaria um ano, ela o atraiu até as margens do pequeno rio que corria nos fundos do terreno em que moravam, com a promessa de fazerem amor sob as águas geladas. Enquanto ele se despia, recebeu o golpe certeiro na cabeça. Depois mais um, depois outro. Até perder a consciência e, logo em seguida, a vida. Com uma machadinha, a jovem viúva, demonstrando a frieza de uma personagem de Hitchcock, decepou todos os dedos de unhas imundas das mãos do marido, inclusive o anelar esquerdo, e os despachou pela correnteza, antes de enterrá-lo na mata.
À noitinha, ligou para a sogra dizendo-se aflita, pois seu amado companheiro saíra de casa na hora do almoço, sem dizer palavra, e não dera mais notícias. O corpo nunca reapareceu.
Poderia ter acontecido assim? Poderia (não importa o que digam os telejornais), mas não foi. A própria Carmem Lúcia atirou o anel do esposo ao riacho quando percebeu que a joalheria gravara seus dois nomes errado, trocando o “m” por um “n” no final do primeiro e suprimindo o acento agudo no segundo. Furiosa, passou a lua-de-mel inteira sem permitir intimidades ao cônjuge. Também não lhe dirigiu a palavra durante os três dias que ele levou para providenciar uma nova aliança com os dizeres corretos. Em julho completarão trinta e quatro anos de casados. E sempre riem juntos toda vez que lembram do episódio.
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