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Era um jantar na casa dos Castro Linhares. Ao redor da grande mesa, da grande sala, da grande casa dos anfitriões, estavam os doze casais amigos que se reuniam para jantar, religiosamente, na última sexta-feira do mês, durante os doze meses do ano, cada vez (através de sorteio) na residência de um deles. O cardápio ficava a critério da dupla sorteada.
Então, na casa dos Castro Linhares, era noite de mais um encontro. O casal Nestor e Roseli sentou-se em frente ao casal Albano e Adalgisa. Os dois homens eram amigos desde os tempos da escola primária; as mulheres conheceram-se posteriormente, devido à amizade dos maridos.
A refeição transcorrera maravilhosamente bem. A truta com amêndoas estava realmente deliciosa. Mas foi na hora da sobremesa que Adalgisa sentiu os pés de alguém (os sapatos, na verdade) subindo furtivamente por sua panturrilha desnuda. Arrepiou-se.
Quem seria, meu Deus?! Perguntava a si mesma, entre o espanto e a curiosidade. O Albano, que estava ao seu lado, não podia ser, já que sua perna adjacente era mecânica. Além disso, há tempos ele não fazia esse tipo de gracinha em público.
Nestor?! Só podia ser. Adalgisa encarou o ladino, enquanto este saboreava um manjar de coco. Nestor sorriu displicente e levantou a taça com os restos da sobremesa: – Está do cacete!
E aquele bico de sapato continuou a acariciar sua desprotegida batata-da-perna até o fim da animada reunião do Clube de Casais, na suntuosa casa dos Castro Linhares.
No mês seguinte, encontraram-se todos novamente na residência dos Oliveira Moura. Coincidência ou não, lá estavam, cara a cara, Nestor e Roseli, Albano e Adalgisa.
Mal começaram a saborear a suculenta ovelha ensopada e aquele pé indiscreto já passeava, para cima e para baixo, pelas conservadas pernas de mais de quatro décadas de Adalgisa. Agora com uma inovação: sem o sapato, só de meia.
Adalgisa encarou Nestor, mas ele não correspondeu. Como era discreto! E que pés habilidosos ele tinha, pensava ela, não reprovando por completo aquelas ortopédicas investidas.
E foi assim, pé ante pé, ou melhor, pé ante perna, durante todo o animado jantar na casa dos Oliveira Moura.
Trinta dias depois, na pomposa cobertura dos Gomes de Sá, como não poderia deixar de ser, o bacalhau era à moda da casa. Pela terceira vez, por ironia do destino, sem nada combinado, os quatro se encaravam à mesa de jantar.
O pé galanteador dessa vez caiu matando, veio sem sapato e sem meia. A certa altura chegou a roçar, de leve, as generosas coxas de Adalgisa, que chegara ao seu limite. Levantou-se, foi até o toilette e escreveu com batom um rápido recado num pedaço de guardanapo, em que dizia: “Segunda-feira, três da tarde, lá em casa. Albano no trabalho.”
Novamente à mesa, encaixou o bilhete cuidadosamente entre o dedão e o indicador do seu pé-pretendente (se é que pé tem dedo indicador). As carícias, cada vez mais ousadas, se estenderam até o fim do animado jantar no espaçoso apartamento dos Gomes de Sá.
Na segunda-feira seguinte, às duas e cinqüenta e cinco da tarde, Adalgisa andava ansiosa pela sala, bebendo seu champanhe, depois de um banho de quase duas horas, trajando sua melhor camisola de seda com detalhes em renda transparente. Ao toque da campainha, num sobressalto, derramou bebida no carpete. Ajeitou mais uma vez os cabelos, corrigiu o rímel borrado e abriu a porta com um sorriso discretamente obsceno, que há muito não lhe passava pelo rosto.
– Adalgisa, meu amor...
Aos gritos, seguidos de ligeira queda de pressão, Adalgisa estabacou-se de costas ali mesmo, no hall de entrada. Roseli nem quis saber de socorrer a amiga, largou o buquê de rosas e fugiu em disparada.
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