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  29.04.08

 
Coração Disléxico  


Na sala de jantar, preencho uns postais e tomo um chá enquanto espero pelo jantar. Minha gata, a Muriel, tenta comer o cadarço do meu All Star por debaixo da mesa. Nem parece que há duas semanas ela retirara mais um tumor das tetinhas e, ainda agora, tem um mapa rodoviário desenhado na barriga, costurado com vinte e três pontos de linha preta.

Tudo bem que uma gata de doze anos passe por problemas de saúde, mas é incrível como a vida da gente (e dos gatos) num momento parece que está nos eixos e, no minuto seguinte, já está degringolando.

E se fosse tarde demais?
E se não desse pra operar?

Aí eu viveria o resto dos meus dias com aquela sensação de ter uma bala Soft atravessada na garganta, porque a falta de perspectiva no presente tende, de forma irreversível, a condenar o futuro. E a desesperança, independentemente dos avanços da ciência, tende a se espalhar rapidamente, como um câncer nas tetinhas de um felino.

Olhando pra Muriel, lembrei de uns colegas de escola que "eram legais e, além do mais, não queriam nem saber". Caras que faziam poesia, tocavam guitarra, baixo e bateria, desenhavam, escreviam manifestos, amavam platonicamente, pichavam muros com palavras de ordem, dirigiam sem carteira, amanheciam jogando conversa fora em dia de prova, sonhavam em conhecer Porto Alegre e Londres.

Já faz um tempo que não sei como eles estão, só ouvi dizer que alguns apenas sobrevivem e outros se foram. Quem continua por aqui não é nem sombra do que imaginou ser um dia. E quem partiu não deixou sequer lembranças do talento que transbordara durante toda a adolescência.

Como na vida da gente (e na dos gatos) a coisa parece estar nos eixos agora, mas, fatalmente, vai degringolar no próximo minuto, na próxima semana, no próximo mês, no próximo ano. Em algum momento, cedo ou tarde, tanto eu quanto você, vamos pensar uma coisa e fazer outra, amar uma pessoa e nos entregar a outra, ser lembrados num dia e esquecidos no outro. Vamos viver e morrer num lapso.

Inocentemente, a Muriel adormece sobre os meus pés. Não interessa a ela se o mundo saiu do prumo ou se foi apenas seu dono a perder o rumo. Nem a enorme cicatriz em sua barriga é capaz de atrapalhar um cochilo tão humano. Eu é que acabo de reparar que o chá esfriou, que os postais ainda estão vazios e que a noite chegou, escura como nunca.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e prefere gatos a cachorros.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas e sugestões também em seu blog: http://dogman.zip.net
A foto é de Arno Martin Winter (martinwinter.fotoblog.uol.com.br).

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