|
Todo mundo já teve um amigo japonês. Mesmo que não tenha sido um autêntico japonês, do tipo chinês ou coreano, garanto que pelo menos um “japa”, em algum momento, fez parte da sua vida: ou no cursinho pré-vestibular (e ele tirou a sua vaga em Medicina) ou na pastelaria ou na lavanderia ou, também, muito provavelmente, na aula de judô ou na fila da mesa de ping-pong na hora do recreio.
O meu japonês é da época da escola, da primeira série do curso científico, e chamava-se Nakajima. O Naka (para os íntimos), como quase todo nissei, era uma pessoa estranha. Sentava-se o ano inteiro na primeira fila, em frente ao professor, concentradíssimo nas aulas. Ao contrário do resto da classe, era o maior cê-dê-efe, tirava uma nota dez atrás da outra e nunca ficava em recuperação, mas dava sempre a impressão de que raciocinava mais lentamente, de que não entendia direito a nossa língua. Não fazia piadas, não achava graça nas anedotas dos outros nem conversava com os colegas à sua volta. Ainda assim, inexplicavelmente, era um cara legal.
Com o passar dos anos, quase no
fim do segundo grau, o Naka já
estava mais solto. Deixou o cabelo
crescer, andava com a camisa do
uniforme para fora da calça
e passou a se interessar pelas meninas.
Na verdade, passou a reparar nas
mulheres em geral. Colecionava revistas
Playboy com o mesmo interesse
com que montava seus kits
Revell de aviação.
Mas não durou muito o período de desbunde do meu amigo oriental. Foi numa festinha americana (daquelas em que as meninas levam a comida e os meninos levam o refrigerante), a última antes da formatura, que o próprio Nakajima botou a perder toda a sua evolução no quesito extroversão.
Enquanto a maioria dos alunos das quatro turmas da terceira série dançava animadamente, em alto volume, embalados pelos sucessos da década de oitenta, eu, o Naka e mais uma meia dúzia de nerds, aos gritos, batíamos um animado papo num canto do salão. Quando a única menina do grupo pediu licença para ir ao toalete, o japa saiu com essa:
– Com a Luíza Brunet isso não aconteceria, mulher bonita não vai ao banheiro.
Todos se entreolharam, mas ninguém disse nada. Tentávamos, tacitamente, adivinhar quem tinha colocado vodka na Fanta laranja do aparvalhado nipônico. Antes de continuar, seus olhinhos puxados ficaram ainda mais oblíquos.
– É verdade, senhores, ou algum de vocês consegue imaginar a Xuxa fazendo cocô?
Depois de ouvir vários “tá louco” e diversos “não viaja”, querendo defender seu ponto de vista acerca da fisiologia das modelos de revista, em meio ao barulho da festa, o Naka estufou o peito e berrou para os companheiros da roda, taxativo, bem na hora em que a música parou:
– Comigo não tem saída, só tem entrada!
Murmurinho no ambiente. O silêncio entre as faixas do disco de vinil já durava uma eternidade, sobretudo para aquele japonês ao qual as atenções se voltavam. Daquela noite em diante, sem perdão (nem em dia de prova), até o último minuto do ano letivo, o pobre Nakajima teve que aturar as suspeitas do corpo discente em relação à sua sexualidade.Talvez por isso tenha tornado a sentar-se na primeira fila, bem em frente ao professor, sem dar conversa mole a nenhum dos colegas à sua volta.
Mais tarde, na faculdade, conheci um outro japonês, de origem tailandesa, mas não havia comparação. O Naka é que era legal, carismático, esquisito na medida certa. Até no jeito de responder à chamada, pensando por alguns segundos antes de dizer “presente”, como se estivesse resolvendo mentalmente uma multiplicação capciosa, ele era peculiar. E foi baseado na inesgotável sabedoria milenar oriental que eu encontrei justificativa para prestar esta singela homenagem ao meu injustiçado amigo dos tempos de colégio: é que o primeiro japonês a gente nunca esquece.
|