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Os pára-choques dos automóveis evoluíram muito. Antigamente, qualquer batidinha já amassava tudo, dava um prejuízo danado. E isso quando a peça inteira não precisava ser trocada por outra, refugo de outro carro danificado, diretamente do ferro-velho mais próximo. Agora não, os pára-choques são resilientes. Resistentes também, mas, sobretudo, resilientes. Não basta uma encostadinha qualquer para avariar um desses pára-choques modernos. Precisa ser uma baita trombada, um impacto de vários megatons, bem na quina, senão eles apenas se deformam momentaneamente, para, logo em seguida, voltarem a ser o que eram antes, sem seqüelas, com uns poucos, quase imperceptíveis, arranhões.
Resiliência é isso, simplesmente. Um conceito da Física que define a capacidade que as coisas e os seres têm de sofrer um baque (um susto, um tapa), acusar o golpe (curvar-se, desesperar-se) e retornar ao seu estado de equilíbrio. Resiliente, portanto, é aquilo ou aquele(a) que “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, como diria o Paulo Vanzolini, assim como os pára-choques de fibra maleável que envolvem os automóveis fabricados hoje em dia.
Tendo como exemplo a indústria automobilística, é notório um número cada vez maior de empresas privadas, dos mais variados ramos de atividade, que procuram funcionários resilientes, ou seja, empregados que saibam lidar com as adversidades e ainda busquem soluções para os problemas do trabalho. No mesmo embalo, profissionais das ciências humanas (educadores, sociólogos, psicólogos, etc.), apoderando-se da definição, afirmam, categoricamente, que a resiliência é uma qualidade inerente aos grandes líderes.
Sem querer agourar a nova tendência, aqui de longe, eu me pergunto: qual é a vantagem? De que adianta alguém passar por um contratempo, contornar uma situação delicada, beijar o chão, comer o pãozinho francês cada vez mais caro que o diabo amassou, para, tempos depois, voltar a ser o que era antes, provavelmente sem aprender nada? Com todo o respeito, mas comigo não cola. Gente equilibrada demais é tão ou mais insuportável do que gente destrambelhada demais. E onde foram parar a escolha errada, o impulso, a intuição, o imponderável, o impensado, a surpresa na existência das pessoas? Se alguma coisa há de acontecer, que venha para provocar uma transformação e não para deixar tudo como sempre esteve.
Por que, por exemplo, uma mulher que não gosta mais do marido tentaria salvar seu casamento, quando todos sabemos que o amor, fatalmente, um dia acaba? Se ela for resiliente, no fundo, no fundo, estará sendo resignada. Agüentará filho, esposo, sogra, amante; resistirá ao preço da carne, à última moda, à idade aparente; moldar-se-á ao chefe, à vizinhança, aos próprios sonhos; só que jamais terá coragem de tomar outro rumo e voltará ao seu estado original de infelicidade cotidiana.
Ronaldo, o “fenômeno”, é um caso típico: passou pela terceira cirurgia nos joelhos em menos de oito anos e aparece na mídia muito mais vezes por seu excesso de peso ou por seu recente affair com a mulher-mandioca do que pelos serviços prestados ao futebol. Então, por que raios não encerra logo a carreira, em vez de perder horas e horas nas salas de fisioterapia e nas coletivas de imprensa inventando desculpas para o mau desempenho nos gramados (e nos motéis)? Que vá jogar videogame, escrever uma biografia, pular Carnaval, fazer outra coisa da vida antes que a resiliência vire obsessão. O fim da carreira não é nenhum fim do mundo, porém, o fundo do poço é aparecer num comercial de televisão com “Tente outra vez” de trilha sonora.
Eu quero distância dos resilientes e dos teóricos da resiliência. Podem me bater, me trair, me chutar, me asfixiar e jogar pela janela, me demitir, me deixar sem comida, sem lenço, sem documento, sem um puto na carteira, não importa: quando tudo voltar ao normal, pretendo estar diferente. Melhor ou pior, tanto faz, mas diferente. Retorcido como um pára-choque acidentado de outras épocas, que seja. Bundão, nunca! |