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Só sei que era domingo. Tive uma insônia horrorosa, daquelas em que a gente fica rolando na cama por quase três horas, naquele estado de modorra, entre a consciência e o sono, até que não agüenta mais a dor nas costas e levanta pra andar pela casa, assaltar a geladeira ou olhar pela janela. Eu podia ter ligado a tevê, mas já tinha visto programas ruins suficientes pra garantir pesadelos a semana toda. Ah, lembrei! Foi no domingo em que encontraram o Layne Staley morto, uma tristeza. O fato é que optei pela janela.
Rua deserta, cheirinho de chuva recente. Num banco da pracinha havia um casal se amassando. E entre um e outro espocar das bolhinhas de saliva, deu pra ouvir o carinha pedir a menina em casamento, obviamente tomado pela emoção à flor do zíper. Tudo normal até aí, não fosse o agravante de nenhum dos nubentes ter mais de dezesseis anos, o que me levou a tecer, mentalmente, algumas considerações:
1. O que é que dois adolescentes dessa idade fazem na rua às duas da madrugada de domingo? Ou não têm pai e mãe ou não têm casa ou não estão estudando, porque eu sei muito bem que a primeira aula da escolinha do bairro começa pontualmente às sete e meia da manhã.
2. Suponhamos que se casem nos próximos meses. Não vão terminar o ensino médio nem fazer faculdade. Vão morar com os sogros ou na casa de praia da família. Ela vai engravidar, claro, pois se aceitou casar-se tão cedo é porque não tem maiores ambições na vida. Vão deixar de sair à noite, perder a maior parte dos amigos e passar a assistir novela da Globo. No auge da intimidade, como prova de amor eterno, vão ao banheiro de porta aberta.
3. Convenhamos, não há nada pior num romance do que ir ao banheiro de porta aberta. Só novela da Globo.
Embaraçada, a menina não disse nem sim nem não, mas permitiu que ele enfiasse a mão por debaixo de sua blusa, o que, na minha modesta opinião, foi a decisão mais acertada. Às vezes, trocar a razão pela emoção, uma única vez, que seja, pode nos levar a cometer aquelas bobagens que ficam sem conserto pra sempre. Na dúvida, é melhor deixar tudo pra depois e oferecer apenas um paliativo, o equivalente a lamber a cobertura do bolo enquanto a festa não começa, quando você, finalmente, vai comer uma fatia inteira.
Então, já era quase segunda-feira. Assunto momentaneamente resolvido, fechei minha janela (sem precisar jogar água nos dois), tomei um Nescauzinho e voltei pra cama. Ainda custei um pouco a pegar no sono. Eu não conseguia parar de pensar naquela menina tão bonitinha se esfregando naquele acéfalo acnéico de uma figa. E pra quem não esteve presente no planeta nos últimos quinze anos, Layne Staley era o cantor do Alice in Chains, graaande banda grunge de Seattle.
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