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  03.06.08

 
Os Verdadeiros Anos 80 (Carta aos Jovens)


Caro(a) amigo(a):

Sempre que você for convidado(a) para um show ou uma festa “anos oitenta”, desconfie. Desconfie muito. Fique com os dois pés atrás. Não deixe de comparecer, por favor, mas certifique-se antes se o evento vai ser uma homenagem ou um deboche, a fim de preparar adequadamente seu espírito. Os anos oitenta foram dourados para quem viveu e sensacionais para quem apenas ouviu falar. Entretanto, quase dois decênios depois do fim do melhor momento da humanidade sobre a Terra, assim como existem pessoas que passaram pela década mágica (atualmente com idade entre 32 e 42), também existem malas, digo, pessoas cuja década simplesmente passou por elas.

Repare que, nos bares e boates que você freqüenta, cada vez que se faz referência àquela época, surgem antenas com pompons nas cabeças dos convidados, óculos enormes e coloridos, plumas, paetês e, o que é pior, a banda que está no palco (normalmente fantasiada de atração circense) toca coisas como Rosana, Sidney Magal, Rita Cadillac, Menudo e RPM. Pois é meu dever alertá-lo(a) de que, apesar de divertidas, as antenas com pompons só existiam em outros planetas, os óculos gigantes eram usados somente pelo Elton John em começo de carreira e “Plumas & Paetês”, mesmo tendo sido nome de novela, até hoje são meros acessórios carnavalescos. Além disso, Rosana, Sidney Magal, Rita Cadillac, Menudo e RPM foram o lixo do lixo do lixo musical das paradas de sucesso. Legais pra caramba, se você ainda não sabe, eram Plebe Rude, Nau, Finis Africae, 365, Muzak, Ira!, Zero, Inocentes, Kiko Zambianchi, Heróis da Resistência e Dulce Quental.

Quando os membros da sua família, tipo tio, tia, irmão mais velho, prima solteirona, e até os amigos dos seus pais, começarem a falar do passado nos almoços de domingo, precisamente sobre o período que vai de 1980 a 1989, você deverá ouvir algumas verdades absolutas como: “Cindy Lauper era infinitamente mais cool do que Madonna”, ”mullet era o corte de cabelo das bandas do Reino Unido e não das duplas sertanejas”, ”Curtindo a Vida Adoidado foi o melhor filme já feito” ou “Jô Soares foi engraçado um dia”. Caso contrário, saia da mesa rápido, antes que o(a) convençam de que a Xuxa é uma mulher talentosa, de que alguém conseguiu montar o cubo-mágico sem trapacear ou de que você nasceu de um download e não de parto normal.

Em relação à moda dos anos oitenta, desconsidere as opiniões de quem tem menos de 30 (é gente que fala sem conhecimento de causa) ou mais de 45 (– Olha quem fala!). Tudo que se usou estava perfeitamente enquadrado no contexto do momento, desde as camisetas com a manga dobrada e os tênis coloridos da Redley até as calças semi-baggy e os Dock Sides da Samello. O que parece horrível agora, foi objeto de desejo lá atrás. Ou você acha que bizarrices como os crocs, os saltos-plataforma, as bolsas Victor Hugo falsificadas, os mocassins com bermuda e a Ivete Sangalo resistirão até a Copa do Mundo de 2014? Oremos.

O comportamento da "geração new wave" também era peculiar. Ao contrário da sua tribo, querido(a) leitor(a), preferíamos ter oito ou dez amigos reais do que cem ou cento e vinte conhecidos virtuais. Quando alguém viajava pra longe, tinha que mandar notícias por carta e, inacreditavelmente, isso era bem mais emocionante do que receber uma mensagem pela internet. Não havia pirataria: quem não podia comprar produtos originais, não comprava e pronto, ninguém morria por esse motivo. E toda vez que marcávamos um encontro, ai daquele(a) que não comparecesse, pois não existia ainda o telefone celular para banalizar a falta de consideração e de compromisso entre as pessoas. Acerca do respeito aos mais velhos e da falta de uns bons tapas nas crianças deste século lhe escreverei numa próxima oportunidade.

Mas não quero fazer comparações, longe disso. Sou um saudosista, provavelmente até sofra da Síndrome de Peter Pan. No entanto, entendo que cada um(a) deve viver no seu tempo, nem antes nem depois, e aproveitá-lo com prazer, mesmo sob a ilusão de que o mundo evoluiu. O que gostaria de dizer, na verdade, é que os anos oitenta são inimagináveis para você e para seus amigos ou amigas. Não há como reviver o fim do regime militar, as primeiras eleições diretas, um gol de Zico ou o Rock in Rio. É impossível reconstituir uma programação de tevê inocente, com mais conteúdo e menos pirotecnia, quando não importava absolutamente o que o povão achava ou deixava de achar. Aliás, tenho minhas dúvidas se a participação popular na mídia de hoje (dando opiniões, enviando fotos e vídeos às emissoras) não é uma praga tão ou mais grave do que os motoqueiros nas grandes cidades, os emos na entrada do Bob’s, o Photoshop nas revistas masculinas ou a Festa do Peão-Boiadeiro.

Para encerrar, apenas reforçando, caso você não tenha prestado atenção: sempre que for convidado(a) para um show ou outro evento “anos oitenta”, desconfie. Desconfie muito. Prepare-se para participar de uma grande palhaçada (a não ser que o Bozo seja o anfitrião), talvez de um baile à fantasia, menos de uma homenagem. Pode ser que, por sorte, apareça uma banda legal, que toque as melhores músicas e tal, portanto, não deixe de comparecer, mas saiba que nada (nem ninguém) vai fazê-lo(a) ter a mínima idéia do que significou a década mágica. Aqueles anos vão continuar sendo dourados para quem viveu e, apesar de inalcançáveis, sensacionais para quem, como você, apenas ouviu falar.

Um grande abraço e bom divertimento!

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e usou New Wave com purpurina.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e uma máquina do tempo pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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