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Saíram para jantar no dia dos namorados. Moravam juntos há algum tempo, mas ainda não se consideravam marido e mulher. Escolheram o mesmo restaurante do primeiro encontro. Pediram o mesmo prato, um steak au poivre. Ela ficou sem jeito de dizer, como todos os anos, que tinha alergia a pimenta-do-reino. Mas comeu e sorriu em cada garfada, apesar da garganta se fechando e da coceira pelo corpo.
Trocaram os presentes logo depois que o garçom recolheu os pratos. Ela tomou o sexto copo de água mineral e tirou da bolsa um vale-compras da Saraiva. Ele agradeceu, largou o palito de dentes no cinzeiro e sacou do bolso da jaqueta um celular com câmera, exatamente igual ao que ela já tinha, só que novinho. Mudos, deram-se as mãos. Olharam-se nos olhos rapidamente, pouco antes dele pedir a conta estalando os dedos.
Caminharam de braços dados até o carro. Não usavam aliança, mas se diziam casados quando estavam juntos (e solteiros quando estavam longe um do outro). Ela botou na boca um chiclete de morango; ele preferiu de hortelã. Ficaram indecisos entre ir ao cinema ou direto para um motelzinho não muito distante. Nenhum dos dois costumava fazer planos, geralmente deixavam para decidir em cima da hora, na moedinha.
Ele disse que aceitaria o cinema se fosse para ver Homem de Ferro, enquanto ela bateu pé porque queria assistir a Sex & The City. Não chegaram a um acordo. Rumaram em silêncio até o motel mais próximo. E de longe avistaram a fila de automóveis. Tiveram a impressão de que todos os casais da cidade haviam pensado a mesma coisa. Deram meia-volta. Não precisavam daquilo, afinal, tinham o apartamento.
Cumprimentaram o porteiro, que estranhou a volta tão rápida do casal para casa numa data tão especial. No elevador, ela encostou a cabeça no ombro dele. Entraram em silêncio, a fim de evitar que o cachorro dele latisse ou que o gato dela miasse. Correram para fazer xixi, cada qual em seu banheiro. Sem levantar do vaso, ela jogou longe a sandália de salto. Ele ligou a tevê e ainda conseguiu pegar o final na novela.
Beijaram-se no corredor, a caminho da suíte. Ela pensou na louça do almoço que transbordava da pia da cozinha. Ele lamentou ter que acordar cedo no dia seguinte para trabalhar. Trocaram de roupa. Ela vestiu a mesma camisola das noites anteriores. De cueca e meia, ele teve que voltar à área de serviço, pois era sua vez de alimentar os bichos. Ao passar pela geladeira, tomou um gole de Pepsi direto no gargalo.
Ela já estava lendo a sua Marie Claire quando ele sentou na cama com uma Quatro-Rodas. Bocejaram simultaneamente meia hora depois. Apagaram as luzes e, na penumbra do quarto, se abraçaram como no primeiro encontro. Antes de pegar no sono, ela agradeceu por estar deitada ao lado do homem que amava. Ele demorou um pouco mais a dormir. Distraiu-se contemplando a beleza da mulher da sua vida.
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