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  17.06.08

 
Da Frutificação dos Furtos Furtivos


Roubaram o meu capacho. E não me refiro àquele assistente puxa-saco que recebeu uma proposta irrecusável de outra empresa nem à estagiária subserviente que se deixou seduzir pelo charuto mais taludo do aspone da diretoria, não. Roubaram mesmo foi o tapetinho que fica do lado de fora da porta de entrada do meu apartamento.

Um caso muito estranho: cheguei do trabalho e ele, que é peludo, com formato e estampa de gatinho, não estava no lugar de sempre. Olhei primeiro pela janela do corredor, afinal, podia ter voado lá embaixo, como aconteceu há pouco tempo com o tapete de pele de urso de uma senhora do andar de cima. Olhei também na lixeira do prédio. Procurei nas portas dos outros apartamentos, pois a faxineira do período vespertino, já um tanto idosa, seria bem capaz de trocar os capachos. Mas não, nada, “sumiu, desapareceu, escafedeu-se”. A velhinha não viu, o porteiro não viu, o zelador não viu, o síndico não viu...

Claro, estão todos mancomunados com o provável ladrão de adornos de piso que, por sua vez, deve servir a uma rede internacional de tráfico de pelegos com motivos animais.

Na minha lista de suspeitos, em avaliação preliminar, figuram as gêmeas do fim do corredor, sobretudo a mais antipática (sei lá, talvez por eu olhar mais para irmã no elevador); o padre Parkinson, com menos chance, pois se ele pegasse o capacho ao meio-dia eu ainda o alcançaria antes das seis da tarde; a estudante solitária e tímida, provavelmente como forma de chamar a atenção antes de apelar para o suicídio; o pai solteiro, tendo como cúmplice sua filhinha com cabelo de Playmobil (é sério, tenho a impressão de que ela tira na hora de dormir e encaixa de novo quando acorda), porque a menina deve ter achado o tapete bonitinho; e, ainda, o velho pedófilo da porta ao lado, que pode tê-lo oferecido como mimo a uma de suas vítimas, dizendo carinhosamente: "pega aqui no gatinho peludo do vovô" ou "bote fé no velhinho, o velhinho é demais". O fato é que todos tinham um motivo razoável para cometer o crime.

Agora, de cabeça fria e passados alguns dias da lamentável ocorrência, já não penso mais em denunciar nem em dar porrada no(a) meliante que subtraiu o tapetinho da minha porta. Decidi que não vale a pena perder o sono por uma caganificância dessas. Amanhã compro outro capacho e pronto, também em formato especial, com desenho de bichinho, mais atraente que o antigo.

Por precaução, ficará colado ao chão com Superbonder, ligado a um sensor de movimento e a uma câmera fotográfica embutida no olho-mágico. Eu sempre fui assim, desapegado das coisas materiais.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e não dá para detetive.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e denúncias pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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