|
Eu estava de saída para levar a minha gata ao veterinário quando o telefone tocou. Mesmo atrasado e não tendo reconhecido o número, larguei a casinha com a Muriel dentro (que a essa altura já esperneava como um Diabo da Tasmânia possuído) e atendi pacientemente, torcendo apenas para que não fosse ninguém da Legião da Boa Vontade.
– Alô!
– É o senhor Dogman que está falando?
– É ele mesmo.
– Aqui é o Nailor, gerente do Banco Descompleto, estou ligando para avisar que a sua conta está negativa.
– Meu amigo, eu nem tenho conta nesse banco.
– Bem, deve ter havido algum engano... e o senhor tem interesse em ser cliente do Banco Descompleto?
– Mas nem que fosse o último banco do mundo!
– Veja bem...
– Não vejo, não.
Respirei, contei até dez e saí para cumprir minha função de pai. A Muriel, minha única filha (eu sei que é uma gata, não estou louco ainda), acabara de passar por uma cirurgia para retirada de um tumor nas tetinhas e precisava consultar semanalmente.
Depois de algumas horas, entre o momento de abrir a portinhola da casinha e a operação para resgatar a bichana de cima do trilho da cortina, saí da clínica com uma receita em mãos. O médico recomendara um spray miraculoso (como eu viria a saber mais tarde) para ajudar na cicatrização. O papel timbrado, estampado com a logomarca de um cachorro enrolado num estetoscópio, não deixava dúvidas de que se tratava de uma instituição de saúde estritamente animal.
Entrei, então, na drogaria mais tradicional da cidade, bem na esquina da Praça XV com o calçadão da rua Felipe Schmidt. Abri a receita sobre o balcão e nem precisei de senha para consultar o farmacêutico.
– Meu jovem, por acaso tens esse remédio?
O rapaz, de jaleco impecavelmente branco, óculos bifocais, maior cara de cê-dê-efe e pinta de recém-formado, analisou o documento, leu e releu o nome do medicamento, coçou o queixo e perguntou, categórico:
– É para o senhor mesmo?
|