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  08.07.08

 
Olha quem (não) está pegando!


De todas as gírias de mau gosto que os adolescentes e crianças maiores de idade do sexo masculino usam hoje em dia, para o meu (bom) gosto, a pior de todas é “pegar”. Fulano tá pegando a beltrana! Adivinha quem eu peguei ontem à noite, véio? Ronaldo pegou dois travestis de uma vez só! Não dá, não dá: dói no ouvido e na alma, além de ser o cúmulo do machismo e da falta de vocabulário.

Tudo bem, já ouvi coisas igualmente horríveis, como “o cara chegou causando” e sua variante “chegou chegando”. Mas chegou causando o quê? Caso, polêmica, risos, decepção, ânsia de vômito? Causar virou verbo intransitivo agora? E se chegou chegando, então chegou duas vezes? Tem dupla personalidade? Acho que ainda não “tô ligado” nas últimas novidades da regência verbal contemporânea, preciso me atualizar, mas o certo é que “pegar” eu não consigo aceitar. Na verdade, quando ouço, sinto uma baita vergonha de ser homem.

Algumas gírias não me incomodam, são até meio inocentes, como “tipo assim” (no lugar das vírgulas), ou engraçadinhas, como “cada um no seu quadrado” (no sentido de cada um na sua). Vá lá se for desse jeito, dou um desconto às invenções que não denigrem a imagem de ninguém. O que não é o caso de “pegar”. Reparem que uma mulher comum, com qualidades ou não, de boa índole ou não, se for conquistada, seduzida, enganada ou abduzida, continuará sendo uma mulher comum. No entanto, se ela se deixar “pegar” por um marmanjo qualquer e a notícia correr, danou-se: será o bastante para ganhar fama de piranha, tamanha a ofensividade do termo.

Podem me chamar de antiquado, de ranzinza, não me importo, tenho orgulho de nunca, desde pequeno, ter me utilizado de modismos para ser igual a todo mundo. Da mesma forma que não achei "chocante" alguma coisa muito legal nos anos setenta, hoje em dia não considero que nada seja "massa" nem "o bicho". Também abomino jargões de tevê na boca do povo, eles são o indicativo mais evidente da falta de personalidade das pessoas. Ou será possível um cidadão exigir credibilidade repetindo sem parar que "tô pagano", "muita calma nessa hora" e "cada mergulho, um flash"? Na minha modesta opinião, quem é capaz de acrescentar ao seu vocabulário uma frase que ouviu num programa humorístico ou numa novela, provavelmente será capaz de seguir conselhos de apresentadoras (e papagaios) de programas femininos, acreditar em horóscopo de jornal e, nos casos mais graves, adquirir um exemplar de A arte da guerra para quem mexeu no queijo do pai rico ou 35 segredos para chegar a lugar nenhum.

Só sei é que me recuso a “estar pegando” (no gerúndio fica pior ainda) uma mulher. Ou estou namorando ou ficando ou comendo, qualquer coisa, menos pegando. Talvez, por isso, acabe até deixando passar uma parte divertida da vida, já que os “pegadores” que conheço são homens admirados, invejados e imitados pelos repelentes de mulher da minha espécie, apesar de serem babacas incorrigíveis. Fazer o quê?

Mas eis o que eu queria contar: na festa junina da escolinha do bairro (bombando!), enquanto eu comia uma puxa-puxa encostado na barraquinha da pescaria, notei que entrava pelo portão uma linda mãe com sua filhinha. Era uma dessas mulheres que existem apenas em sonho ou no cinema, mas que, por uma bênção divina, me olhava discretamente de tempos em tempos e, segundo informações de fonte fidedigna, divorciara-se recentemente.

– Tu não vai pegar? – Perguntou o segurança da barraca do quentão.
– Olha o respeito, rapaz! Vou lá falar com ela...
– Demorô!
– Demorei nada, acabei de ter a idéia e... ah, deixa pra lá.

Aproximei-me pisando em ovos, tentando ser simpático, sobretudo com a menina, que era magrinha, branquinha, cheia de olheiras e usava um vestido caipira com um lenço na cabeça em vez de um chapéu de palha. Lancei mão de todo o meu tato e experiência de amante à moda antiga para tocar fundo o coração daquela exuberante mamãe.

– Bem que a senhora fez trazendo a menina pra se divertir... é leucemia?
– Não, vai ser carpideira na morte do boi-de-mamão.

Créu.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e só pega gripe.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e cantadas pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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