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O marido tinha uma enorme verruga
no lado esquerdo do rosto, perto
do nariz, mais ou menos do tamanho
de um grão de ervilha. No começo
era menor, apenas um calombo, parecido
com uma espinha. Mas o nódulo crescera
demais nos últimos dois anos e agora,
há poucas semanas, começava a criar
pêlos, que Janaína, pacientemente,
arrancava com uma pinça de sobrancelha.
Ela jurava amá-lo de qualquer jeito:
feio ou bonito, barbado ou asseado,
perebento ou sedoso. E ele acreditava.
No trabalho, reparou que alguns
amigos já não o encaravam diretamente,
sobretudo na hora do almoço. Outros,
ao contrário, ficavam hipnotizados
pela vistosa protuberância e fixavam
o olhar sem a menor cerimônia. Em
casa, Janaína alisava-lhe o rosto
e dava beijinhos estalados em volta
da bizarra saliência, garantindo
que achava aquela "pinta" um charme.
Consultou-se com o doutor Pacheco
na primeira oportunidade, mesmo
sob a ameaça de abandono por parte
da esposa, caso removesse o "sinalzinho"
do qual ela tanto gostava. "Vamos
queimá-la com ácido", foi a primeira
sugestão do médico da família. No
entanto, as aplicações diárias de
Duofilm não surtiram nenhum
efeito sobre a pústula cabeluda.
Janaína acompanhou o marido em
nova visita ao consultório. Ouviu
do próprio doutor Pacheco que o
carnegão só poderia ser extraído,
então, através de cirurgia, mas
que o plano de saúde do casal não
cobriria tal despesa. Em seu receituário,
o clínico geral anotou o
exorbitante valor da operação e
estendeu o bloco ao casal. "Nossa
Senhora!", exclamaram.
Relaxa, meu amorzinho, eu
adoro a sua verruguinha...
Por essa dinheirama é mais
fácil deixar a barba crescer pra
disfarçar.
Eu providencio uma maquiagem,
passo pan cake, colo um Band-Aid...
Também não precisa sacanear,
pô!
Ele se despediu da mulher na saída
da clínica e voltou ao trabalho,
decidido a esquecer o assunto. Quem
quisesse tirar sarro que tirasse,
pensou desolado. Janaína aguardou
por mais meia hora, na calçada do
outro lado da rua, a saída da secretária
do doutor Pacheco. Subiu novamente
as escadas e entrou subitamente
na sala, já com a blusa aberta e
a saia levantada até a cintura.
Apesar das lágrimas, caminhou na
direção do médico da família e ainda
conseguiu suplicar-lhe com uma voz
desesperadamente firme antes de
cair de joelhos:
Eu faço qualquer coisa,
doutor, qualquer coisa! Não agüento
mais olhar aquela verruga nojenta
na cara do meu marido, não agüento!
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