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  15.07.08

 
Estética


O marido tinha uma enorme verruga no lado esquerdo do rosto, perto do nariz, mais ou menos do tamanho de um grão de ervilha. No começo era menor, apenas um calombo, parecido com uma espinha. Mas o nódulo crescera demais nos últimos dois anos e agora, há poucas semanas, começava a criar pêlos, que Janaína, pacientemente, arrancava com uma pinça de sobrancelha. Ela jurava amá-lo de qualquer jeito: feio ou bonito, barbado ou asseado, perebento ou sedoso. E ele acreditava.

No trabalho, reparou que alguns amigos já não o encaravam diretamente, sobretudo na hora do almoço. Outros, ao contrário, ficavam hipnotizados pela vistosa protuberância e fixavam o olhar sem a menor cerimônia. Em casa, Janaína alisava-lhe o rosto e dava beijinhos estalados em volta da bizarra saliência, garantindo que achava aquela "pinta" um charme.

Consultou-se com o doutor Pacheco na primeira oportunidade, mesmo sob a ameaça de abandono por parte da esposa, caso removesse o "sinalzinho" do qual ela tanto gostava. "Vamos queimá-la com ácido", foi a primeira sugestão do médico da família. No entanto, as aplicações diárias de Duofilm não surtiram nenhum efeito sobre a pústula cabeluda.

Janaína acompanhou o marido em nova visita ao consultório. Ouviu do próprio doutor Pacheco que o carnegão só poderia ser extraído, então, através de cirurgia, mas que o plano de saúde do casal não cobriria tal despesa. Em seu receituário, o clínico geral anotou o exorbitante valor da operação e estendeu o bloco ao casal. "Nossa Senhora!", exclamaram.

– Relaxa, meu amorzinho, eu adoro a sua verruguinha...
– Por essa dinheirama é mais fácil deixar a barba crescer pra disfarçar.
– Eu providencio uma maquiagem, passo pan cake, colo um Band-Aid...
– Também não precisa sacanear, pô!

Ele se despediu da mulher na saída da clínica e voltou ao trabalho, decidido a esquecer o assunto. Quem quisesse tirar sarro que tirasse, pensou desolado. Janaína aguardou por mais meia hora, na calçada do outro lado da rua, a saída da secretária do doutor Pacheco. Subiu novamente as escadas e entrou subitamente na sala, já com a blusa aberta e a saia levantada até a cintura. Apesar das lágrimas, caminhou na direção do médico da família e ainda conseguiu suplicar-lhe com uma voz desesperadamente firme antes de cair de joelhos:

– Eu faço qualquer coisa, doutor, qualquer coisa! Não agüento mais olhar aquela verruga nojenta na cara do meu marido, não agüento!

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e não aponta o dedo às estrelas.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e doações pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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