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Dentre tantas bobagens que a sabedoria
popular passa de geração para geração,
em máximas como "o trabalho
engrandece o homem", "Deus ajuda
a quem cedo madruga" ou "aqui se
faz, aqui se paga", existe uma que,
para mim, não cola de jeito nenhum:
"uma imagem vale mais do que mil
palavras". No campo do jornalismo,
até vai; no da fotografia também.
Mas, em se tratando de relacionamentos,
não há por onde.
Imagine, caro amigo, as melhores
lembranças que você tem de sua amada:
a maneira como ela se veste, com
roupas da Gaia ou da Side
Walk; o andar elegante, ainda
que seus pezinhos apontem ligeiramente
para fora; o cacoete de morder os
lábios pelo lado de dentro quando
está preocupada com alguma coisa;
o olhar firme e compreensivo (azul,
verde ou cor de mel) sempre que
você esquece uma data importante.
Visualize os passeios mais legais
que fizeram ultimamente: até a cidade
em que moram seus futuros sogros;
até o país vizinho, por alguns dias
apenas, em dez vezes fixas no cartão
de crédito; até Gramado para tomar
um café colonial, Curitiba para
fazer umas comprinhas, Pomerode
para comer chucrute e passear no
zoológico; até a praia mais deserta
da sua cidade, em pleno outono,
só porque ela adora ver o
mar.
Faça um esforço, puxe do fundo
da cachola as cenas mais memoráveis
desde o começo do romance:
a carinha que ela fez na oportunidade
em que você mandou flores fora de
hora; as lágrimas que ela derrama
cada vez que assiste a um romance
com o Patrick Dempsey; o jantar
que ela pagou quando recebeu o primeiro
salário no novo emprego; a musse
de chocolate absolutamente ruim
que você não cansa de elogiar.
Lembre, assim como quem não quer
nada, do que deveria ser inesquecível:
a hora e o local do primeiro beijo;
a noite em que você a viu sem roupa
e ficou sem ação; os nomes que escolheram
para os filhos, mas que, por enquanto,
vão usar nos filhotes de vira-lata
recém-abandonados na portaria
do prédio; o lugar no qual pretendem
morar definitivamente, cujo dono
não quer vender de jeito nenhum.
O que quero dizer é que momentos
bons e ruins são fáceis de visualizar.
As recordações vêm
à mente sem o mínimo esforço, mesmo
sobre fatos menos importantes ou
dos quais gostaríamos de esquecer.
No caso da pessoa amada, então,
parece que a história ao lado dela
gruda como chiclete na sola do All
Star do seu cérebro e não há
sabedoria milenar capaz de fazê-lo
ignorar sentimentos tão doces.
Mas fiquei atento, prezado amigo:
apesar das belíssimas experiências
visuais recorrentes nos seus mais
melosos pensamentos, se você nunca
disse "eu te amo" (com todas as
letras), saiba que você não existe
para essa mulher. E é aí que entra
a minha implicância com o dito popular,
pois todos sabemos que no amor,
assim como na poesia e nos dicionários,
três palavras valem muito mais do
que mil imagens.
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