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  05.08.08

 
O Ócio Ocioso


Foi por acaso que entrei em férias no mês de julho. Trinta dias inteirinhos pra não fazer nada, como nos tempos do colégio. Mas colégio de antigamente, que fique claro, porque hoje a folga está cada vez menor. Na escolinha do bairro onde moro, por exemplo, os alunos passam somente duas semanas sem aulas. No verão, mais ou menos entre a Proclamação da República e o Carnaval, no lugar dos quase três meses aos quais fui acostumado, a molecada ganha apenas trinta e poucos dias, sem direito a esperar pelo fim da estação ou pela quarta-feira de cinzas, o que é lamentável e preocupante.

O réveillon vai chegando e o piá ainda está lá: em recuperação, em prova final, em prova de recuperação da prova final. Acabam-se as festas de fim de ano (no melhor momento pra se namorar, fazer amigos, viajar, dormir até tarde) e o pobre adolescente vai fazer intercâmbio, curso de férias, reforço de inglês e escolinha de futebol, além de cuidar dos irmãos menores. Fevereiro e o ano letivo começam praticamente juntos, como se uma etapa da vida fosse antecipada, comparável àquelas noites em que a gente chega em casa bêbado depois das três da madrugada e acorda às seis e meia pra trabalhar.

Ainda não entendi por que, ao longo de três décadas, as escolas passaram a ocupar o tempo livre de seus alunos com atividades extraclasse e um maior número de aulas no calendário. Que diferença fará, ao futuro de qualquer estudante, aprender a distinguir força centrípeta de força centrífuga, fazer a análise sintática de uma oração ou saber calcular a concentração molar de uma solução? Diminuir as férias de verão e as férias de julho, na minha modesta opinião, equivale a substituir o colesterol bom pelo colesterol ruim na corrente sangüínea de um paciente com problemas cardiovasculares.

Tudo bem que os pais contemporâneos queiram manter a maior distância possível de seus filhos e que as famílias já não se reúnam ao redor da mesa para o jantar, mas é que a falta de tempo ocioso (não necessariamente criativo) acaba comprometendo o futuro das crianças e dos jovens. A cultura da "otimização" (sic) do tempo, no mundo adulto, é o que hoje obriga os shoppings e supermercados a abrirem as portas aos domingos, os empregados a trabalharem doze horas por dia e a descansar apenas cinco horas por noite, que a busca pelo primeiro emprego comece na puberdade.

A obsessão em "mostrar serviço", que agora vem desde as primeiras séries do colegial, é a maior responsável pelas cretiníssimas doenças da modernidade, como o estresse, a depressão, a síndrome do pânico, os cabelos brancos, o tédio, a preguiça, a caspa e a ausência de vergonha na cara. A escassez dos momentos em que podemos optar por fazer alguma coisa ou não fazer absolutamente nada (férias, feriados, finais de semana, etc.) não nos tem permitido absorver informações, pensar na vida, valorizar relações e relacionamentos ou, simplesmente, tirar uma soneca fora de hora.

Ficar à toa, de papo pro ar, coçar o saco, morcegar... tanto faz. Não há demérito em não se fazer nada de vez em quando. Cada um, desde pequeno, merece ser dono do próprio tempo e gastá-lo como bem entender, sem pressão da família, da escola, da sociedade, de quem quer que seja. E quanto mais tempo sobrar, melhor. Ao contrário do que pregam os gananciosos, os hiperativos, os educadores, os pais sem vocação e os livros de auto-ajuda, felicidade mesmo é tomar café da manhã em casa, ir à praia num dia útil, acompanhar o pôr-do-sol e ter sempre um tubo de Hipoglós à mão.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e matava aula direto.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e passatempos pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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