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Foi por acaso que entrei em férias
no mês de julho. Trinta dias inteirinhos
pra não fazer nada, como nos tempos
do colégio. Mas colégio de antigamente,
que fique claro, porque hoje a folga
está cada vez menor. Na escolinha
do bairro onde moro, por exemplo,
os alunos passam somente duas semanas
sem aulas. No verão, mais ou menos
entre a Proclamação da República
e o Carnaval, no lugar dos quase
três meses aos quais fui acostumado,
a molecada ganha apenas trinta e
poucos dias, sem direito a esperar
pelo fim da estação ou pela quarta-feira
de cinzas, o que é lamentável
e preocupante.
O réveillon vai chegando
e o piá ainda está lá: em recuperação,
em prova final, em prova de recuperação
da prova final. Acabam-se as festas
de fim de ano (no melhor momento
pra se namorar, fazer amigos, viajar,
dormir até tarde) e o pobre adolescente
vai fazer intercâmbio, curso de
férias, reforço de inglês e escolinha
de futebol, além de cuidar dos irmãos
menores. Fevereiro e o ano letivo
começam praticamente juntos, como
se uma etapa da vida fosse antecipada,
comparável àquelas noites em que
a gente chega em casa bêbado
depois das três da madrugada e acorda
às seis e meia pra trabalhar.
Ainda não entendi por que, ao longo
de três décadas, as escolas passaram
a ocupar o tempo livre de seus alunos
com atividades extraclasse e um
maior número de aulas no calendário.
Que diferença fará, ao futuro de
qualquer estudante, aprender a distinguir
força centrípeta de força centrífuga,
fazer a análise sintática de uma
oração ou saber calcular a concentração
molar de uma solução? Diminuir as
férias de verão e as férias de julho,
na minha modesta opinião, equivale
a substituir o colesterol bom pelo
colesterol ruim na corrente sangüínea
de um paciente com problemas cardiovasculares.
Tudo bem que os pais contemporâneos
queiram manter a maior distância
possível de seus filhos e que as
famílias já não se reúnam ao redor
da mesa para o jantar, mas é que
a falta de tempo ocioso (não necessariamente
criativo) acaba comprometendo o
futuro das crianças e dos jovens.
A cultura da "otimização" (sic)
do tempo, no mundo adulto, é o que
hoje obriga os shoppings
e supermercados a abrirem as portas
aos domingos, os empregados a trabalharem
doze horas por dia e a descansar
apenas cinco horas por noite, que
a busca pelo primeiro emprego comece
na puberdade.
A obsessão em "mostrar serviço",
que agora vem desde as primeiras
séries do colegial, é a maior responsável
pelas cretiníssimas doenças
da modernidade, como o estresse,
a depressão, a síndrome do pânico,
os cabelos brancos, o tédio, a preguiça,
a caspa e a ausência de vergonha
na cara. A escassez dos momentos
em que podemos optar por fazer alguma
coisa ou não fazer absolutamente
nada (férias, feriados, finais de
semana, etc.) não nos tem permitido
absorver informações, pensar na
vida, valorizar relações e relacionamentos
ou, simplesmente, tirar uma soneca
fora de hora.
Ficar à toa, de papo pro ar, coçar
o saco, morcegar... tanto faz. Não
há demérito em não se fazer nada
de vez em quando. Cada um, desde
pequeno, merece ser dono do próprio
tempo e gastá-lo como bem entender,
sem pressão da família, da escola,
da sociedade, de quem quer que seja.
E quanto mais tempo sobrar, melhor.
Ao contrário do que pregam os gananciosos,
os hiperativos, os educadores, os
pais sem vocação e os livros de
auto-ajuda, felicidade mesmo é tomar
café da manhã em casa, ir à praia
num dia útil, acompanhar o pôr-do-sol
e ter sempre um tubo de Hipoglós
à mão.
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