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  05.02.08

 
Folia & Cinzas  


Eu não gosto de Carnaval. Que me desculpem aqueles que gostam, mas essas festas populares, com muita gente alegre reunida, onde ninguém é de ninguém e o aumento da taxa de natalidade no mês de novembro é recorde, na verdade, me deixam até um pouco deprimido.

Pelo menos o feriadão é longo e, acabada a folia, da quarta-feira de cinzas em diante, surgem ótimas histórias pra se contar ou pra se esquecer, dependendo de qual parte da trama você faz parte. Eu não faço parte de nenhuma, obviamente, visto que o meu desfile no bloco Antebraços de Morfeu (declinei do convite pra sair no Acadêmicos do Ortobom) não foi dos mais emocionantes e ainda estourou o tempo.

Falando em histórias, lembrei de uma boa: de um conhecido de infância (hoje dono de bistrô), grande, gordo, peludo, que cismou de sair vestido de odalisca com uma fantasia toda feita de papel crepom vermelho. No sábado à tarde, na Praça XV, começou a chover e a roupa derreteu inteirinha, deixando o jovem culinarista só de sunga, todo escarlate do pescoço pra baixo, que nem chiclete de criança com anilina quando mancha a língua.

Tem também a da mocinha que, mesmo não gostando de Carnaval, aceitou ir com as amigas ao baile do Clube 12. Dormiu das duas da madrugada às seis da manhã no confortável sofá do banheiro feminino.

A mesma dublê de foliã, um pitéu aos dezoito anos de idade (hoje psicóloga de renome, ainda um mulherão), desferiu um mae-keri no estômago de um Batman que lhe passou a mão nas nádegas. Ficou lá o "super-herói", estatelado no salão, sem nada poder fazer contra as aulas de caratê que ela vinha tomando há mais de seis meses na Academia Valdicleison Gracie.

Mas a melhor dessas passagens momescas é a da filha da dona Glorinha, a Maria de Lurdes, que juntou todas as economias e foi pro Rio de Janeiro fazer um curso de esteticista. Um dia ligou pra casa e avisou à mãe que ia ser destaque no carro abre-alas da Unidos da União do Império Imperial, uma escola de samba do segundo grupo.

Dona Glorinha, viúva há doze anos, religiosa, muito querida na vizinhança, espalhou a notícia por todo o bairro e, na noite de sexta-feira, reuniu mais de quarenta pessoas, entre amigos, parentes e curiosos, frente ao seu televisor para acompanhar o desfile.

Em pleno sambódromo, no alto do primeiro carro da escola, surgiu a Lurdinha, filmada de vários ângulos por oito câmeras diferentes, com o nome e o sobrenome na legenda, lidos em voz alta pelo locutor da emissora, totalmente nua, peladinha da silva, só com um montinho de purpurina pouco abaixo do umbigo.

Na sala lotada, ninguém ousou abrir a boca, muito menos a dona Glorinha. O infarto foi fulminante.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-marido e ex-comungado.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e doações pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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