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  12.08.08

 
Ovos Frescos


Pouco antes de ir à clínica dei uma passadinha na farmácia do bairro, só pra ver se tinha algum lançamento. Nas atuais circunstâncias, desde que extrapolei determinada idade, farmácia, pra mim, é como se fosse locadora de DVD. Mas dessa vez não havia novidades, pelo menos para os meus males. Uma pena, porque cansei do formato e da fórmula do meu analgésico de cabeceira.

A tomografia estava marcada para as quatro da tarde. Agora que eu me recuperara parcialmente das costelas quebradas, depois que um ônibus verde desgovernado da empresa que atende o Norte da Ilha passou por cima do meu carro (comigo dentro, obviamente), precisava descobrir a causa de ainda sentir dores de cabeça diariamente e de ficar meio "banzo" de vez em quando.

Pontualmente, sem direito a folhear a revista Caras da semana, fui conduzido a uma sala especial, na maior penumbra, onde havia uma máquina gigante, bem parecida com um forno futurista de pizzaria. Não precisei tirar a roupa nem nada. Menos mal, pois a minha cueca da sorte não é das mais bonitas e, recentemente, sei lá como, consegui manchá-la com molho de tomate.

Deitei de barriga pra cima, com a cabeça encaixada num recorte da maca. Estranho, mas muito confortável, tenho que admitir. A enfermeira, uma menina novinha (provavelmente a caloura caçula do curso de enfermagem), de mãos relativamente trêmulas, sacou uma seringa do bolso do uniforme e, sem pedir licença, foi aplicando no meu braço um líquido que chamou de "contraste".

Perguntei o porquê daquilo e ela esclareceu dizendo que era parte do exame, que a substância ajudaria o equipamento a fazer uma leitura mais clara da caixa craniana, e que talvez eu sentisse algum enjôo e um "geladinho" na cabeça. Antes que as minhas outras dúvidas pudessem virar uma cantada originalíssima, a mocinha se afastou e avisou que voltaria em vinte minutos.

Um curto alarme soou e a maca, agora barulhenta, parecendo ar-condicionado antigo, deslizou para dentro de um túnel iluminado. Fechei os olhos e entreguei nas mãos de Morfeu. Aos poucos foi batendo aquele soninho e, mesmo em adiantado estado de modorra, antes de começar a roncar, senti claramente o tal "geladinho" para o qual a enfermeira alertara. Na virilha.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e sofre de enxaqueca.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e analgésicos pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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