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Pouco antes de ir à clínica dei
uma passadinha na farmácia do bairro,
só pra ver se tinha algum lançamento.
Nas atuais circunstâncias, desde
que extrapolei determinada idade,
farmácia, pra mim, é como se fosse
locadora de DVD. Mas dessa vez não
havia novidades, pelo menos para
os meus males. Uma pena, porque
cansei do formato e da fórmula do
meu analgésico de cabeceira.
A tomografia estava marcada para
as quatro da tarde. Agora que eu
me recuperara parcialmente das costelas
quebradas, depois que um ônibus
verde desgovernado da empresa que
atende o Norte da Ilha passou por
cima do meu carro (comigo dentro,
obviamente), precisava descobrir
a causa de ainda sentir dores de
cabeça diariamente e de ficar meio
"banzo" de vez em quando.
Pontualmente, sem direito a folhear
a revista Caras da semana,
fui conduzido a uma sala especial,
na maior penumbra, onde havia uma
máquina gigante, bem parecida com
um forno futurista de pizzaria.
Não precisei tirar a roupa nem nada.
Menos mal, pois a minha cueca da
sorte não é das mais bonitas e,
recentemente, sei lá como, consegui
manchá-la com molho de tomate.
Deitei de barriga pra cima, com
a cabeça encaixada num recorte da
maca. Estranho, mas muito confortável,
tenho que admitir. A enfermeira,
uma menina novinha (provavelmente
a caloura caçula do curso
de enfermagem), de mãos relativamente
trêmulas, sacou uma seringa do bolso
do uniforme e, sem pedir licença,
foi aplicando no meu braço um líquido
que chamou de "contraste".
Perguntei o porquê daquilo e ela
esclareceu dizendo que era parte
do exame, que a substância ajudaria
o equipamento a fazer uma leitura
mais clara da caixa craniana, e
que talvez eu sentisse algum enjôo
e um "geladinho" na cabeça. Antes
que as minhas outras dúvidas pudessem
virar uma cantada originalíssima,
a mocinha se afastou e avisou que
voltaria em vinte minutos.
Um curto alarme soou e a maca,
agora barulhenta, parecendo ar-condicionado
antigo, deslizou para dentro de
um túnel iluminado. Fechei os olhos
e entreguei nas mãos de Morfeu.
Aos poucos foi batendo aquele soninho
e, mesmo em adiantado estado de
modorra, antes de começar a roncar,
senti claramente o tal "geladinho"
para o qual a enfermeira alertara.
Na virilha.
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