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Sempre achei que fosse folclore
essa história de que os escritores,
de vez em quando, têm um bloqueio
criativo e não conseguem produzir
nada. Pois aconteceu comigo pela
primeira vez: a síndrome da página
em branco. Ou melhor, da tela do
Word em branco. Já estou
há horas na frente do computador
tentando ter uma idéia, encontrar
assunto, divagar em cima de alguma
fofoca, lembrar de coisas engraçadas
(reais ou imaginárias) e nada. Nem
um titulozinho consegui inventar
pra servir de ponto de partida.
Logo o prazo de fechamento da coluna
vai se esgotar e, caso o lado direito
do meu cérebro continue em greve,
existe uma grande possibilidade
de eu ficar desempregado nesta terça-feira.
Pensei em fazer como o Rubem Braga
fazia quando não sabia o que escrever.
Ele mandava o leitor se catar e
pronto, sugeria que ocupassem o
tempo com coisas mais úteis ou que
fossem ler outros colunistas e o
deixassem em paz. Só que o Rubem
Braga era o melhor, podia tudo.
Enquanto euzinho aqui, um ilustre
desconhecido, se tentasse coisa
parecida, correria o risco de não
ser mais lido nem pela própria família.
Fácil mesmo seria falar sobre as
olimpíadas de Pequim, sobre a cara
de bunda (com cãibra) da Jade Barbosa,
sobre a arrogância do nosso time
masculino de vôlei, sobre a chatice
das reportagens do Régis Röesing
ou sobre a ignorância de quem chama
Pequim de Beijing e Bielorrúsia
de Belarus. Ainda sobre os jogos,
além de não ser nenhum sacrifício
exaltar a beleza das jogadoras de
handebol da Hungria, de vôlei da
Polônia e de basquete da Suécia,
também seria divertido divulgar
os nomes engraçados dos (as) atletas:
Theodoros Papaloukas (do basquete
grego, se dando bem com a maioria
das mulheres), Salvatore Bocchetti
(do futebol italiano, cujo sobrenome
as irmãs e a esposa odeiam), Ana
Vermelhudo Cabecinha (do atletismo
português, ótima sugestão para pseudônimo
de drag queen), Tong Tong
Cai (da ginástica rítmica chinesa,
praticamente uma onomatopéia), Ramón
Fumado (dos saltos ornamentais venezuelano,
um cara muito doido), Tatiana Rouba
(da natação espanhola, exigindo
atenção redobrada dos juízes), Alois
Dansou (da natação etíope, eliminado
logo no primeiro dia), Min Gao (do
ciclismo chinês, patrocinada pela
Farinha Láctea Nestlé) e
Amaury Leveaux (da natação francesa,
que no fim das contas não levou,
perdeu para o brasileiro César Cielo);
mas é que já tem tanta gente falando
sobre as competições que eu acabaria
me transformando em mais um mala
sem inspiração fazendo de conta
que entende as regras de todos os
esportes, uma espécie de Galvão
Bueno da literatura urbana.
Assim, sob pressão, me sobram poucas
opções. Talvez a "lei seca" renda
algumas linhas, sobretudo porque
agora o ébrio contraventor não pode
mais ser algemado quando for detido.
A importância da obra de Dorival
Caymmi para a música brasileira
é outro tema atraente, porém, infelizmente,
não tenho cacife para discorrer
acerca de nenhum aspecto da carreira
do gênio baiano sem obrigá-lo
a revirar-se no túmulo.
Tanta coisa mereceria ser dita
numa crônica. Pena que eu não seja
um iluminado com o poder de controlar
as palavras a qualquer momento,
que nem o Zuenir Ventura, por exemplo.
Aliás, dou graças ao Senhor
por conseguir controlar pelo menos
o meu esfíncter e, de vez em quando,
cometer um texto engraçadinho. Pensando
bem, é melhor não escrever nada
do que uma bobagem qualquer. Meu
avô sempre dizia: em boca
fechada não entra mosquito. Amanhã
converso com o chefe, não há de
me faltar inspiração para uma boa
desculpa esfarrapada.
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