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Dentre todas as fases da vida das
mulheres, existe uma que, na minha
modesta opinião, é a mais crítica:
a passagem do estágio de "coroa"
para o de "senhora". Acontece entre
os quarenta e os cinqüenta anos
de idade (às vezes antes), sem que
elas se dêem conta. Aliás, também
são poucos os homens que reparam
nessa metamorfose, a não ser alguém
como eu, um verdadeiro ás no universo
feminino.
No caso dos marmanjos fica bem
mais fácil detectar a sublimação
do estado normal para o estado "tiozão"
(não fosse pelo fato de isso poder
ocorrer já na puberdade, dependendo
da classe social e da árvore genealógica
de cada um), que é quando passam
a se vestir com agasalhos de tactel
completos e tênis branco ou, ainda
pior, bermuda social com camisa
Lacoste e mocassim de franjinha.
Na falta deste último, vale um sapatênis,
afinal, como costuma dizer o filósofo
gaúcho Allan Sieber, nenhum homem
jamais será um idiota completo se
não tiver pelo menos um par de sapatênis
em casa.
Voltando às mulheres: a classificação
etária das fêmeas modernas está
claramente ligada ao seu perfil
e ao seu comportamento no dia-a-dia,
perante a sociedade e perante quem
elas bem entenderem, entre quatro
paredes, logo que terminar a novela
das oito. Até os dez anos são crianças,
dos dez aos vinte são adolescentes,
dos vinte aos trinta são adultas,
dos trinta aos quarenta são balzaquianas,
dos quarenta aos cinqüenta são coroas,
dos cinqüenta aos sessenta são senhoras,
dos sessenta aos setenta são idosas
e, a partir daí, que me perdoem
as anciãs, são um estorvo
para a previdência social.
Mas eis o que eu queria dizer:
num determinado momento, com a proximidade
da menopausa, devemos analisar as
quarentonas por um ângulo diferente,
preferencialmente pela retaguarda,
não mais pela frente. Na verdade,
me refiro à bunda mesmo, se é que
não me entenderam.
Reparem que, desde que ganham corpo
até o climatério, as mulheres em
geral, tanto trajando calça quanto
moletom ou biquíni, têm a bunda
dividida em duas partes como prevê
a anatomia humana (um volume para
cada lado com uma divisão no meio).
No entanto, de uma hora para outra,
o peso da idade se manifesta implacavelmente
nos fundilhos das jovens senhoras,
eliminando a depressão situada entre
as duas nádegas e transformando
toda a área traseira em um único
planalto semi-árido, no melhor estilo
Glória Menezes, agravado pelo uso
de enormes calcinhas esgarçadas
do tipo Bridget Jones, o que dá
ao observador a nítida impressão
de ali, pelo lado de dentro, haver
uma almofada, uma fralda geriátrica,
um coador de café ou um yorkshire.
É assim, portanto, que se caracteriza
a tão temida passagem da fase "coroa"
para a fase "senhora" na vida das
mulheres. As papadas se unem, como
um Mar Vermelho se fechando definitivamente
após a travessia dos hebreus.
E para saber em qual estágio se
encontram, é preciso que sejamos
discretos na avaliação (aproveite
uma viradinha): bunda dividida em
duas partes ainda dá um caldo.
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