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Fui pedir emprego de colunista numa
revista para adolescentes. Sem meias
palavras, o editor foi logo me dizendo
que eu não tenho o perfil adequado,
que os meus textos não são nada
exemplares para os leitores jovens
aos quais a publicação se destina.
Uma pena. Mal sabe ele que, além
de me adaptar facilmente a qualquer
público, também sou um ás no comportamento
da juventude contemporânea.
Entre outras coisas, tentei argumentar
com o meu interlocutor que, nas
primeiras crônicas, caso ele me
contratasse para um período de experiência,
eu poderia alertá-los (os adolescentes
em geral) sobre a estupidez de quererem
crescer antes da hora, sobre a idiotice
de fazerem uma tatuagem por impulso
ou sobre a inconveniência de falarem
alto demais quando estão reunidos
em bando.
Por já ter sido da idade
deles um dia, numa época nem tão
distante assim, eu ainda teria credibilidade
para dizer-lhes que os penteados
de hoje vão envergonhá-los nas fotos
de amanhã, que é melhor ter o rosto
cheio de espinhas e um cérebro sem
preconceitos do que uma pele de
pêssego e a cabeça vazia, que seus
pais e mães estão sempre
certos quando não vão com a cara
de um(a) namorado(a).
Nas páginas da revista para a qual
eu gostaria de trabalhar, sendo
ela semanal ou mensal, explicaria
aos jovens leitores que, apesar
de todas as mulheres da novela das
oito dependerem dos homens para
viver e de um colunista sem talento
manter um quadro há quase trinta
anos no telejornal local, as pessoas
normais precisam correr atrás do
próprio sustento e não entram nas
empresas sem qualificação.
Em pouco espaço, não mais que uma
página, eu aconselharia, se fosse
admitido ao final da entrevista,
que os adolescentes aproveitem sem
exagero os avanços tecnológicos,
de modo que não percam a noção da
vantagem de se ter um amigo de carne
e osso em vez de trezentos e poucos
conhecidos virtuais no Orkut.
Também os aconselharia a estudar
com parcimônia, pois todo
cê-dê-efe é um chato.
Na tentativa de impressionar o
editor, falei a ele que demonstraria,
logo nos primeiros textos, que quem
bebe e fuma nessa idade não merece
respeito, que quanto mais cedo uma
menina ganhar corpo, mais cedo se
tornará uma baranga, ou que um guri
mal-educado fatalmente será um adulto
ignorante. E nem cheguei a mencionar
a necessidade de uns sopapos durante
o processo educacional.
Percebi a impaciência no semblante
do meu avaliador. Continuei sem
entender se ele me considerava muito
novo ou muito velho para escrever
em sua revista. Talvez se eu tivesse
citado alguns temas mais modernos,
como jogos violentos, música ruim,
falta de banho e sexo sem camisinha.
Ou quem sabe ele tenha mesmo razão
e eu seja um inadequado. Uma grave
ameaça ao futuro das novas gerações.
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