|
Foi na longínqua década de 1980,
quando eu ainda jogava bola descalço
na rua com os meus amigos, que fui
vizinho de um casal muito interessante.
Interessante não, curioso. Era um
casal curioso. Peculiar, na verdade.
Isso, peculiar é a palavra. Moravam
na casa em frente à que eu morava
com meus pais. Ele se chamava Alceu,
aposentado da Aeronáutica, e ela
se chamava Luzia, dona de casa;
ambos na faixa dos cinqüenta anos
de idade. Tinham três filhos crescidos,
duas meninas e um menino, que apareciam
de vez em quando, geralmente nos
feriados e nas datas comemorativas.
Na maior parte do tempo (era o que
eu podia observar da nossa varanda)
faziam companhia um ao outro.
Diariamente, no meio da manhã,
seu Alceu levava o curió para passear,
enquanto dona Luzia começava a preparar
o almoço. Na volta, além do passarinho
na gaiola, ele às vezes trazia o
pão para o lanche da tarde. Depois
da sesta, o homem ia jogar dominó
com os outros velhos na praça; já
a mulher esperava o marido sair
e, dependendo das condições climáticas,
escolhia remexer os canteiros no
fundo do quintal ou fazer tricô
em frente à televisão. Fechavam
as janelas bem cedo, fosse qual
fosse a estação do ano, logo que
o sol se punha. E mais não se sabia
sobre os dois.
Ah, faltou contar que as partidas
vespertinas de dominó na praça eram
regadas a Velho Barreiro.
Talvez por isso, eventualmente,
seu Alceu custava a acertar a chave
na fechadura da porta de entrada
e precisava que dona Luzia o acudisse.
Somente nessas ocasiões ela alterava
um pouco a voz, ralhava com o esposo,
mas logo corria a lhe fazer um café.
Agora sim, era tudo o que se sabia
sobre os dois.
A vizinhança não se surpreendeu
quando ele caiu de cama por causa
de uma cirrose. Os filhos começaram
a aparecer com mais freqüência,
preocupados com a mãe, que não arredava
pé do quarto onde o pai estava confinado.
O pobre curió nunca mais foi levado
a dar uma volta e o mato tomou conta
dos canteiros no fundo do quintal.
Dona Luzia, bastante abatida, cada
vez mais fraca, apenas sussurrava
para si, repetidamente: "Se levares
o Alceu me leva junto, Senhor".
E o Senhor o levou mesmo, em menos
de duas semanas. Nas conversas dos
adultos, uns diziam que ela não
duraria muito tempo, pois o amor
havia se acabado nesta vida, mas
precisava continuar em algum lugar;
outros garantiam que a viúva resistiria,
já que tinha boa saúde e encontraria
nos netos a motivação para continuar
vivendo.
Dona Luzia surpreendeu a todos
cuidando pessoalmente do velório,
do enterro e até da missa de sétimo
dia. Dispensou a solidariedade dos
parentes e conhecidos do bairro,
pediu aos filhos que não se preocupassem
tanto, voltou a fazer tricô e a
cuidar das plantas. Não fosse pelo
fato de conversar com o falecido
em voz alta nas horas vagas, parecia
mesmo que as coisas tinham voltado
ao normal. Era começo de primavera,
numa quinta-feira do mês de
setembro, se não me falha a memória.
Eu e os meus amigos do futebol ouvimos
dizer que ela dormiu perto das 22
horas, como fazia sempre, e não
acordou na manhã seguinte. O curió
também não resistiu.
|