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Era um convite de casamento. E o
fato de não ter remetente nem carimbo
de postagem significava que fora
deixado ali pessoalmente. Da inicial
lentidão, Paulina passou a acelerar
o processo de abertura do envelope,
rasgando-o completamente. Ao reconhecer
o nome e o sobrenome de um de seus
ex-namorados, o único por quem fora
verdadeiramente apaixonada, lembrou-se
de uma canção de Reginaldo Rossi
e não conteve as lágrimas.
Com as lentes dos óculos embaçadas
pelo choro, seguiu para o trabalho.
Pelo caminho, ia lendo e relendo
todos os dados impressos em papel
vergê no convite humilde, do nome
dos pais da noiva ao endereço da
capela em que a cerimônia seria
realizada, no município de Schroeder,
ao norte da pacata Jaraguá do Sul
do final da década de noventa. A
distância até a Biblioteca Pública
Municipal Rui Barbosa, no centro
da cidade, parecia ter dobrado naquela
manhã de segunda-feira. Mesmo assim,
Paulina chegou no horário.
Durante todo o expediente (e no
restante da semana), classificou
livros e revistas com os códigos
invertidos, além de guardá-los na
seção errada. Confundiu, em diversas
ocasiões, a Classificação Facetada,
na qual os documentos mais complexos
sofrem sucessivos desdobramentos
a fim de facilitar-lhes a compreensão
e o arquivamento, com a Classificação
Decimal Dewey (CDD), bem mais simples,
utilizada para agilizar a localização
de material em qualquer parte do
acervo. Nas prateleiras organizadas
recentemente pela bibliotecária,
tornaram-se comuns os encontros
de Carl Sagan e Carl Jung no espaço
destinado à "Literatura Oriental"
ou de Cora Coralina e Cora Rónai
no estande dos semanários.
Apesar da paixão com que costumava
se entregar ao ofício, não conseguia
parar de pensar no grande amor de
sua vida nem na proximidade da data
do casamento. O homem a quem ela
dedicara quase cinco anos da adolescência
e da juventude ia se casar com uma
desconhecida em menos de dez dias.
Conheceram-se por acaso. Ele, ainda
muito novo, havia perdido quase
toda a visão em decorrência de uma
retinite pigmentosa, doença ocular
degenerativa de acentuado caráter
hereditário. Paulina o avistou pela
primeira vez próximo a uma construção
tentando ler um muro de chapisco
imaginando tratar-se de um outdoor
em braile. Encantou-se imediatamente
com sua ingenuidade e com sua delicadeza.
Após o terceiro ou quarto encontro,
ele já era incapaz de ir a algum
lugar sem ela ou de criticar sua
maneira bisonha de se vestir.
O fim do romance foi inesperado,
porém, previsível. Enquanto Paulina
estava de mudança para Florianópolis,
onde cursaria Biblioteconomia na
UFSC, ele decidiu seguir sua rotina
como instrutor de uma auto-escola
no próspero município de Corupá,
maior produtor de bananas de Santa
Catarina. Não houve despedida nem
juras de amor. Nem nunca mais deram
notícias um ao outro.
Agora, na véspera do matrimônio
para o qual fora convidada, estava
agitada. Preferia não ter sido lembrada
pelos noivos. Perdida num turbilhão
de pensamentos desconexos, não conseguiu
dormir durante toda a noite de sexta-feira.
Precisava libertar-se do passado,
precisava fazer com que aquele sábado
de maio fosse apenas mais um sábado
sem importância.
Ao despontar dos primeiros raios
de sol, finalmente, tinha um plano.
Perfeito, infalível. Paulina levantou-se,
tomou um banho, vestiu sua melhor
roupa, contou as notas de dinheiro
na carteira e saiu, decidida a fazer
o que qualquer mulher faria em seu
lugar. Primeiro cortou os cabelos
bem curtos; depois comprou quatro
pares de sapatos no crediário. A
plástica no nariz, infelizmente,
teria que esperar mais um pouco.
Talvez até a sua próxima licença-prêmio.
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