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Ele mudara muito. De sandália
de couro, camiseta do Che Guevara
e barba desgrenhada, nem parecia
o mesmo rapaz asseado e cheiroso
que eu conhecera em Curitiba há
mais de dez anos, num curso de "parapsicologia
aplicada ao talento duvidoso dos
diretores de criação".
Não fosse pela máquina
fotográfica pendurada no
pescoço e pelo mapa de Florianópolis
nas mãos, eu juraria tratar-se
apenas de mais um sindicalista matando
trabalho.
Depois de cinco minutos de conversa
descobri que ele ainda era universitário,
porém, em vez de Desenho
Industrial, agora cursava Gestão
de Artesanato, sem previsão
de conclusão.
Em frente ao Hotel Cruzeiro, olhando
para um e outro lado, como se estivesse
perdido, sem se importar com a feiúra
das mulheres que freqüentam
a rua Conselheiro Mafra em horário
comercial, sua hesitação
nada tinha a ver com nenhum dos
pontos turísticos da cidade
que ele mal conhecia e pretendia
visitar durante as férias
da faculdade.
– Cachorrão, me diz
uma coisa...
– Fala, meu pombo.
– O que é esse "tanso"
que vocês falam pra todo mundo?
– Por que, andaram te chamando
de tanso?
– É... tanso pra lá,
tanso pra cá, seu tanso...
que porra é essa?
– Tá bom, vou te dar
um exemplo...
– Manda.
– Votaste no Lula em 2002,
não é?
– É.
– Significa que tinhas esperança
em dias melhores.
– É verdade.
– Em 2006 votaste pela reeleição
do molusco, digo, do presidente,
certo?
– Certo.
– Quer dizer que és
um cara otimista.
– Hehe, sou mesmo.
– E se ele for pro terceiro
mandato tu vais votar nele de novo,
não é?
– Claro.
– Pois então, és
um tanso mesmo... tás compreendendo?
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