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Percebi que
a menina do caixa me olhou de um
jeito esquisito quando fiz o pedido.
Provavelmente eu era o primeiro
cliente na história da lanchonete
a escolher uma combinação tão absurda,
e talvez por isso ela tenha aguardado
a minha terceira confirmação verbal
antes de gritar debochadamente para
o pessoal da cozinha:
Um
McFish e um capuccino de
300ml, por favor!
Alguns dias
antes, num restaurante italiano,
daqueles em que se pode combinar
livremente os ingredientes dos pratos,
me aconteceu episódio parecido.
Eu andava com vontade de experimentar
o nhoque da casa e, ao mesmo tempo,
com um desejo gestatório de comer
espaguete à carbonara. O garçom,
muito gentilmente, anotou o pedido.
Qual
a massa, senhor?
Nhoque.
E o molho?
Carbonara.
Tem certeza?
Por que, não pode?
Pode... mas é estranho.
Quando anunciei
que ia beber suco de abacaxi com
hortelã para acompanhar, achei que
ele fosse me bater com o cardápio
na cara. Inexplicavelmente, trinta
e cinco minutos depois, um segundo
garçom veio servir a gororoba (admito,
a aparência não fez jus ao sabor),
enquanto o primeiro tomava um Plasil
em outro setor do estabelecimento.
Ora, quem
não tem lá as suas esquisitices
gastronômicas?
Meu irmão
mais novo sempre come bolacha maria
besuntada com o feijão que sobra
do almoço; tive uma vizinha que
amassava abacate com sal e pimenta
em vez de açúcar e limão; eu mesmo
tomo café gelado e prefiro beber
Coca-Cola sem gás. Além do mais,
existem tantas outras combinações
inviáveis (culinárias ou não) que
ninguém contesta, como a Danielle
Winits fazendo papel de escritora,
por exemplo. As ações policiais
e a vida dos reféns de seqüestro
também são coisas que não combinam,
mas isso já é assunto para um outro
texto.
Voltando
ao nosso tema: o que quero dizer
é que nem a menina da lanchonete
nem o garçom do restaurante têm
o direito de torcer o nariz para
nenhum pedido de nenhum cliente,
por mais bizarro que pareça
(o pedido, não o cliente).
Cada um sabe de suas potencialidades
digestivas e faz a mistureba que
bem entender, dane-se a opinião
alheia.
Não quero
nem imaginar o que dirão os franceses
se souberem que costumo raspar toda
a cobertura do croque-monsieur
(não suporto molho bechamel) ou
como reagirão os enobobos de plantão
assim que eu revelar que tenho aqui,
ao lado do computador, um copo de
vinho importado, com muita água,
gelo e adoçante.
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