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Um ovo era
tudo o que havia na geladeira. Branco,
limpo, solitário. Cuidadosamente,
como se fosse a flor-de-maio ou
algum corpo acidentado, o conduziu
até a bancada ao lado do fogão.
Abriu a tampa do saleiro e buscou
a garrafa de azeite debaixo da pia.
Na terceira tentativa, conseguiu
acender o fogo. Manteve a chama
baixa e demorou um pouco a posicionar
a frigideira. Precisava, antes,
certificar-se de que a escumadeira
ficaria numa distância inferior
à envergadura de seus braços, de
modo que pudesse alcançá-la sem
desviar o olhar da fritura. Conferiu
também a posição do prato com arroz,
previamente requentado no microondas,
colocado sobre a boca diagonal do
queimador inflamado.
Na frigideira,
agora centralizada na grade sobre
o fogo brando, despejou um fio de
óleo. Depois outro e mais outro,
até atingir uma camada de dois milímetros
de altura em relação ao fundo. Distraiu-se
com as bolhas provocadas pelo aquecimento
e quase permitiu que a temperatura
do líquido extrapolasse os 180 graus
centígrados. Mas sabia que não tinha
motivo para preocupação, pois o
processo de degradação da gordura
derivada das azeitonas se dá a partir
dos 210 graus somente.
Segurou o
ovo na palma da mão direita e traçou
mentalmente sua bissetriz. Com a
mão esquerda, usou o cabo da escumadeira
para aplicar suaves pancadas na
linha central até rachar-lhe a casca.
Aproximou-se a uma distância segura
do azeite quente, de modo que pudesse
desviar os dedos de qualquer eventual
respingamento fervente. Cravou os
dois polegares na parte previamente
amolecida da cobertura e puxou uma
metade para cada lado, rapidamente,
garantindo, assim, a queda livre
e sem deformações de seu conteúdo.
O desenho
de uma ameba (ou de uma estrela-do-mar
ou de um splash publicitário)
formou-se imediatamente. A transparência
viscosa da clara foi dando lugar
a um esbranquiçado quase sólido,
interrompido apenas pelo amarelo
constrangedor da gema redonda, que
pendia mais para o nordeste no campo
de visão. O blastocisto já não o
incomodava, desaparecera por completo.
Com um gesto automático, retirou
um punhado de sal do saleiro e espalhou
duas generosas pitadas por sobre
a área delimitada pela albumina.
Pegou a frigideira pelo cabo e estabeleceu
movimentos giratórios no ar, para
ter certeza de que nenhuma parte
do ovo estava ainda grudada no alumínio.
Em poucos
minutos uma borda dourada passou
a contornar toda a clara. Não conseguia
lembrar se deveria aumentar ou diminuir
o tempo de cozimento para preservar
as propriedades das proteínas e
dos carotenóides, então resolveu
ignorar esse detalhe e concentrar-se
unicamente na aparência de sua obra.
Podia imaginar a primeira garfada
no arroz umedecido pela gema mole.
Podia imaginar também a baba amarela
escorrendo-lhe pelos cantos da boca,
sem nenhum pudor, sem nenhuma censura,
sem nenhuma testemunha.
Inclinou
a frigideira. Esperou o óleo ficar
acumulado num canto para, em seguida,
jogá-lo de volta com a escumadeira
por cima do ovo. Repetiu o processo.
Uma, duas, três vezes. E, sem querer,
furou a gema, que se espalhou disforme.
Desesperou-se. Retirou o mais rápido
que pode o ovo frito do azeite fumegante
e o depositou sobre o arroz morno.
A gema, seca e dura, aplacaria sua
fome, porém, não mais
lhe escorreria pelos cantos da boca.
Não se perdoou por isso. Jamais
se perdoaria.
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