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  28.10.2008

 
Imperfeição


Um ovo era tudo o que havia na geladeira. Branco, limpo, solitário. Cuidadosamente, como se fosse a flor-de-maio ou algum corpo acidentado, o conduziu até a bancada ao lado do fogão. Abriu a tampa do saleiro e buscou a garrafa de azeite debaixo da pia. Na terceira tentativa, conseguiu acender o fogo. Manteve a chama baixa e demorou um pouco a posicionar a frigideira. Precisava, antes, certificar-se de que a escumadeira ficaria numa distância inferior à envergadura de seus braços, de modo que pudesse alcançá-la sem desviar o olhar da fritura. Conferiu também a posição do prato com arroz, previamente requentado no microondas, colocado sobre a boca diagonal do queimador inflamado.

Na frigideira, agora centralizada na grade sobre o fogo brando, despejou um fio de óleo. Depois outro e mais outro, até atingir uma camada de dois milímetros de altura em relação ao fundo. Distraiu-se com as bolhas provocadas pelo aquecimento e quase permitiu que a temperatura do líquido extrapolasse os 180 graus centígrados. Mas sabia que não tinha motivo para preocupação, pois o processo de degradação da gordura derivada das azeitonas se dá a partir dos 210 graus somente.

Segurou o ovo na palma da mão direita e traçou mentalmente sua bissetriz. Com a mão esquerda, usou o cabo da escumadeira para aplicar suaves pancadas na linha central até rachar-lhe a casca. Aproximou-se a uma distância segura do azeite quente, de modo que pudesse desviar os dedos de qualquer eventual respingamento fervente. Cravou os dois polegares na parte previamente amolecida da cobertura e puxou uma metade para cada lado, rapidamente, garantindo, assim, a queda livre e sem deformações de seu conteúdo.

O desenho de uma ameba (ou de uma estrela-do-mar ou de um splash publicitário) formou-se imediatamente. A transparência viscosa da clara foi dando lugar a um esbranquiçado quase sólido, interrompido apenas pelo amarelo constrangedor da gema redonda, que pendia mais para o nordeste no campo de visão. O blastocisto já não o incomodava, desaparecera por completo. Com um gesto automático, retirou um punhado de sal do saleiro e espalhou duas generosas pitadas por sobre a área delimitada pela albumina. Pegou a frigideira pelo cabo e estabeleceu movimentos giratórios no ar, para ter certeza de que nenhuma parte do ovo estava ainda grudada no alumínio.

Em poucos minutos uma borda dourada passou a contornar toda a clara. Não conseguia lembrar se deveria aumentar ou diminuir o tempo de cozimento para preservar as propriedades das proteínas e dos carotenóides, então resolveu ignorar esse detalhe e concentrar-se unicamente na aparência de sua obra. Podia imaginar a primeira garfada no arroz umedecido pela gema mole. Podia imaginar também a baba amarela escorrendo-lhe pelos cantos da boca, sem nenhum pudor, sem nenhuma censura, sem nenhuma testemunha.

Inclinou a frigideira. Esperou o óleo ficar acumulado num canto para, em seguida, jogá-lo de volta com a escumadeira por cima do ovo. Repetiu o processo. Uma, duas, três vezes. E, sem querer, furou a gema, que se espalhou disforme. Desesperou-se. Retirou o mais rápido que pode o ovo frito do azeite fumegante e o depositou sobre o arroz morno. A gema, seca e dura, aplacaria sua fome, porém, não mais lhe escorreria pelos cantos da boca. Não se perdoou por isso. Jamais se perdoaria.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e se vira bem na cozinha.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas e sugestões também em seu blog: http://dogman.zip.net

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