|
Ir ao supermercado
num sábado à tarde pode ser uma
aventura e tanto. Ainda mais pra
mim, que sempre dou apenas uma passadinha
rápida quando preciso repor os gêneros
de primeira necessidade (tipo Sukita
uva, bolacha recheada, Nescauzinho,
goma de mascar, etc.) e sou obrigado
a aturar famílias inteiras, às vezes
com oito ou nove membros, incluindo
as sogras e os cunhados, dando palpites
em torno de um único carrinho, lotado
de compras, geralmente bloqueando
a passagem, não importa por qual
corredor eu esteja transitando.
Como não
sou suficientemente idoso nem gestante
nem deficiente físico, é certo que
uma dessas famílias estará à minha
frente também na fila do caixa.
Mas antes, bem antes da hora em
que normalmente bato boca com os
empacotadores e pago a despesa,
o caminho é tortuoso. Ouço
e vejo de tudo (e não morro) enquanto
procuro, com a maior paciência,
todos os itens da minha reduzida
lista.
Logo na seção
de laticínios percebi que uma jovem
senhora analisava as caixas de leite
longa vida. Virava uma por uma e
conferia o número na parte de baixo
da embalagem. Muito segura de sua
grande descoberta, gritou para o
marido, que fazia o mesmo na gôndola
ao lado:
Cinco!
Tá barato porque já foi repasteurizado
cinco vezes!
Achei que
ninguém acreditasse em lendas urbanas,
sinceramente.
Pensei em dizer a ela que aquele
número (1, 2, 3, 4, ou 5) era relativo
ao posicionamento da bobina que
estabelece a ordem seqüencial de
produção durante o processamento
do leite UHT; e que, além disso,
o Regulamento Nacional de Inspeção
Sanitária prevê, em seu artigo 35,
parágrafo 4º, que o leite não pode,
em hipótese alguma, ser repasteurizado.
Mas fiquei na minha e deixei a mulher
perder seu tempo vasculhando todas
as caixas disponíveis no estabelecimento.
Pouco depois,
no corredor das guloseimas, cruzei
com duas raparigas bastante estranhas.
Não deviam ter mais de vinte anos.
Uma era gordinha, de óculos; a outra,
mais magra. Ambas calçando All
Star, vestindo jeans surrado
e camiseta com estampa do Che Guevara.
Estacionadas defronte da prateleira
das barras de chocolate, a menorzinha,
entusiasmada, apontou o dedo e falou
para a amiga:
Olha
só, o Hershey's tá na promoção!
Rispidamente,
a mais adiposa respondeu:
Tá louca! Não vamos comprar nada
desses americanos imperialistas!
Então, a
própria fofinha-revolucionária escolheu
outra marca, separou três barras
e as colocou na cestinha, junto
das seis latas de Diet Coke.
Dessa vez não pensei em dizer nada,
juro. Também fui meio abobado quando
tinha essa idade, sei bem como é
isso.
Minha última
parada foi na seção de higiene capilar.
Eu procurava qualquer produto que
fizesse parar de crescer cabelo
nas mãos (se é que me entendem)
quando uma jovem mãe, alguns metros
adiante, tentava acalmar a filha
pré-adolescente, completamente histérica.
O
que foi, filhinha?
Ai, mãe... não tem nenhum xampu
com ceramidas!
Já cansado,
sem o mínimo interesse acerca da
influência das ceramidas na história
da humanidade, fui me aproximando
do caixa vazio. Apesar de tudo,
talvez fosse meu dia de sorte. Cheguei
mais perto, até conseguir ler a
mensagem numa plaquinha de acrílico:
Por favor, dirija-se ao guichê
ao lado. E no guichê ao lado,
bem à minha frente, uma família
inteira, com oito ou nove membros,
incluindo a sogra e o cunhado, dava
palpites em torno de um único carrinho,
abarrotado com as compras do mês.
|