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Subiu na figueira
e não descia de jeito nenhum. Desde
que a construtora descumprira o
acordo de preservar as árvores e
demolir apenas o sobrado, ele estava
acorrentado aos galhos mais altos.
Do pouco que havia no terreno onde
nasceu, não ligava tanto para a
casa. Sua grande paixão era a centenária
figueira, onde costumava se refugiar
depois das aulas na escolinha do
bairro. Tratou de arranjar uma corrente
e um cadeado, assim que viu metade
do pomar destruído pelas máquinas,
e não teve dificuldade para subir
a quase quatro metros de altura.
Exigia uma intervenção judicial
que garantisse o cumprimento do
contrato.
Um pequeno
grupo de curiosos e dois ou três
fotógrafos da imprensa escrita já
ocupavam boa parte da calçada do
outro lado da rua. A família, também
presente, reduzida a um irmão e
à esposa, não compartilhava do mesmo
sentimento pela causa. Os operários
da obra paralisaram as atividades
e aguardavam instruções do advogado
da empresa.
Durante os
três dias em que estava ali, alimentou-se
de algumas balas que trouxera nos
bolsos e bebeu água da chuva. Não
queria conversa nem aceitava ajuda.
Pensava nos melhores momentos de
sua infância, no quanto tinha sido
agradável aquele lugar e no balanço
que o avô construíra para ele, exatamente
no galho forte e grosso em que agora
se encontrava.
Pensou também
no restante da cidade, absolutamente
tomada por fábricas e edifícios.
Carregava a impressão de que a figueira
era o único pedaço de natureza sobrevivente,
solitária como ele, na imensidão
da selva de pedra. Lembrou dos milhares
de pingüins mortos no litoral catarinense
devido a um vazamento de óleo no
mar e da devastação de metade da
Floresta Amazônica em território
mato-grossense para beneficiar plantadores
de soja. Sentiu um súbito desânimo,
muito maior que o cansaço pela posição
incômoda no alto da árvore.
Perto da
meia-noite, notou que a rua estava
vazia. O vigilante da construtora
fazia sua ronda do outro lado do
terreno. Ele abriu o cadeado, soltou
a corrente e desceu da velha figueira.
Silenciosamente, caminhou pelas
sombras até tomar o rumo de casa.
Preferiu desistir antes que o considerassem
louco. Não podia mesmo fazer mais
nada.
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