|
É mais ou
menos nesta época do ano, entre
novembro e dezembro, que as escolas
particulares costumam abrir a temporada
de matrículas para o próximo ano
letivo. E cada uma faz o que pode
para chamar a atenção (desde pintar
a fachada até fantasiar os professores
de bonecos de posto de combustível),
na tentativa de justificar a exorbitância
de suas mensalidades e roubar um
ou dois alunos de alguma instituição
concorrente. Sendo assim, toda vez
que um casal cometer o contra-senso
de procriar nos dias de hoje, o
sofrimento será menor. É que recebi
o folheto de um colégio que oferece
os seguintes serviços para 2009:
Atendimento
a crianças de zero a seis anos;
Período integral;
Horário adaptável;
Refeições incluídas;
Pernoite nos finais de semana;
Câmeras de segurança monitoradas
pelos pais através da internet.
Significa,
portanto, que qualquer um, podendo
desembolsar uma módica quantia de
tempos em tempos, matricula o(a)
filho(a) logo após o nascimento,
leva cedinho para a escola (ainda
dormindo), pega de volta à noite
(já dormindo), hospeda aos sábados
e domingos (para poder ir à praia
ou fazer uma viagem rápida), não
gasta com comida, não quebra a cabeça
respondendo às perguntas típicas
da infância, dá uma espiadinha pelo
computador quando estiver com saudade
e, comodamente, seis anos depois,
retira a criança crescida, fazendo
coisas que ninguém imaginava (como
falar, andar ou escrever) e esforçando-se
ao máximo para conviver resignadamente
com os estranhos que se dizem seus
pais, dois despreparados, incapazes
de criar até um Tamagochi.
Melhor do
que isso só se os filhos já nascessem
adultos, dá para imaginar? A família
de poucas posses botaria rapidinho
o marmanjão a trabalhar; a família
mais abonada daria um carro de presente
e matricularia o descendente numa
faculdade de medicina. Em não havendo
infância e adolescência, os gastos
com educação, vestuário e alimentação
seriam destinados exclusivamente
à reconstituição do períneo
da parturiente (se é que
me entendem).
Eis o que
eu queria dizer: Sinceramente,
não estou lá muito preocupado com
o futuro das crianças, pois daqui
a pouco parto dessa para uma melhor
e não vou nem querer saber no que
elas transformaram a cidade, o país
ou o planeta inteiro depois que
se tornarem adultos fúteis e vendidos
ou velhos safados e pigarrentos.
De qualquer forma, enquanto não
começo a ver a vida de um ângulo
inferior, não pude deixar de reparar
na antiga canção que uma professora
cantava pelos corredores da escolinha
aqui perto de casa (a única de um
bairro nobre do Norte da Ilha),
enquanto trazia os alunos pelas
mãos, da sala de aula para a biblioteca.
Fui morar
numa casinha-nhá
ENFEITADA-dá
De cupim-pim-pim
Saiu de lá-lá-lá
A LARGATIXA-xá
Olhou pra mim, olhou pra mim
E fez assim: bu!
Esperei a
pirralhada repetir a letra, apenas
para me certificar de que aprenderam
errado mesmo. E fiquei aliviadíssimo
por não ter filhos ou enteados nem
precisar procurar um colégio
decente para matriculá-los neste
período em que a pirotecnia fala
mais alto do que a qualidade de
ensino. Em último caso (em caso
de gravidez acidental, na verdade),
não fiz ainda a minha escolha, mas
já sei exatamente onde o
Júnior não vai estudar nos próximos
anos letivos.
|