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Eu nunca tinha
ido a um velório. Nem dos mortos
da minha família nem da família
de ninguém. Mas acabei indo a esse,
apenas para fazer média com a menina
com quem eu estava saindo. Ela choramingou
um "fica do meu lado" tão fofinho
que não tive como recusar. Além
do mais, o falecido em questão era
seu avô materno, dono de um considerável
patrimônio em terrenos e salas comerciais,
prometido em vida à neta predileta
no caso de óbito repentino e irreversível.
Era o caso, aparentemente.
Na modesta
capela da funerária, uma multidão
de parentes se aglomerava. Fiquei
do lado de fora enquanto pude, consolando
a minha pequena, oferecendo o ombro
para que ela derramasse suas lágrimas
e contando a quantidade de arranjos
e coroas de flores espalhadas por
todos os lados, do pátio externo
até o caixão.
Uns choravam,
outros sorriam. Sim, sorriam. Um
sorriso de Monalisa, prontamente
transformado em pesar quando da
aproximação de algum descendente
mais próximo do defunto. Os mais
jovens, alguns vindos da cidade
vizinha, reunidos num canto afastado,
já combinavam um programa
para a noite. Os mais velhos, sentados
nas poucas cadeiras disponíveis
no local, tentavam adivinhar quem
seria o próximo a dobrar o Cabo
da Boa Esperança, pois regulavam
em idade com o cadáver.
Em circunstâncias
nada ideais, fui apresentado a vários
primos, primas, tios, tias, amigos
e amigas da família para a qual
eu pretendia entrar. Educadamente,
apesar da insistência da ala masculina,
me recusei a contar piadas que alegrassem
o ambiente e me dispus a confirmar
os resultados dos jogos do Brasileirão
ao final da cerimônia.
Alheio ao
movimento à sua volta, o
avô da minha futura namorada repousava
lúgubre, decúbito dorsal, no caixão
aberto. Quando ela foi entrando
no salão, me puxando pela mão, tentei
resistir delicadamente, mas não
houve jeito. Eu ia chegar perto
de um morto pela primeira vez na
vida, e logo de um homem a quem
nunca tinha visto mais gordo (nem
mais branco nem mais gelado), parecido
com uma vela de sete dias derretida,
de terno e gravata, com algodõezinhos
no nariz.
A fila para
o último adeus diminuía. Atrás da
neta e imediatamente à frente da
viúva, ambas aos prantos, procurei
imaginar como se age ou que se diz
numa hora dessas. Não que eu tivesse
alguma obrigação, afinal, nem sabia
o nome do patriarca, apenas queria
evitar um fiasco diante da moça
em pleno funeral antes de firmar
compromisso.
Cara a cara
com o de cujus, em pensamento,
pedi uma bênção para o romance que
se iniciava. O velho pareceu entender
o recado e emitiu um som semelhante
a um peido, só que com a boca. Em
seguida expirou o ar derradeiro
dos pulmões, atirando longe a bolinha
de algodão de uma das narinas. Definitivamente,
aquilo era um "não" em forma de
suspiro. Sem que ninguém notasse,
cobri rapidamente o orifício nasal
do falecido, persignei-me e saí
de fininho. Direto para o banheiro
da capela.
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