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  09.12.2008

 
De Cujus


Eu nunca tinha ido a um velório. Nem dos mortos da minha família nem da família de ninguém. Mas acabei indo a esse, apenas para fazer média com a menina com quem eu estava saindo. Ela choramingou um "fica do meu lado" tão fofinho que não tive como recusar. Além do mais, o falecido em questão era seu avô materno, dono de um considerável patrimônio em terrenos e salas comerciais, prometido em vida à neta predileta no caso de óbito repentino e irreversível. Era o caso, aparentemente.

Na modesta capela da funerária, uma multidão de parentes se aglomerava. Fiquei do lado de fora enquanto pude, consolando a minha pequena, oferecendo o ombro para que ela derramasse suas lágrimas e contando a quantidade de arranjos e coroas de flores espalhadas por todos os lados, do pátio externo até o caixão.

Uns choravam, outros sorriam. Sim, sorriam. Um sorriso de Monalisa, prontamente transformado em pesar quando da aproximação de algum descendente mais próximo do defunto. Os mais jovens, alguns vindos da cidade vizinha, reunidos num canto afastado, já combinavam um programa para a noite. Os mais velhos, sentados nas poucas cadeiras disponíveis no local, tentavam adivinhar quem seria o próximo a dobrar o Cabo da Boa Esperança, pois regulavam em idade com o cadáver.

Em circunstâncias nada ideais, fui apresentado a vários primos, primas, tios, tias, amigos e amigas da família para a qual eu pretendia entrar. Educadamente, apesar da insistência da ala masculina, me recusei a contar piadas que alegrassem o ambiente e me dispus a confirmar os resultados dos jogos do Brasileirão ao final da cerimônia.

Alheio ao movimento à sua volta, o avô da minha futura namorada repousava lúgubre, decúbito dorsal, no caixão aberto. Quando ela foi entrando no salão, me puxando pela mão, tentei resistir delicadamente, mas não houve jeito. Eu ia chegar perto de um morto pela primeira vez na vida, e logo de um homem a quem nunca tinha visto mais gordo (nem mais branco nem mais gelado), parecido com uma vela de sete dias derretida, de terno e gravata, com algodõezinhos no nariz.

A fila para o último adeus diminuía. Atrás da neta e imediatamente à frente da viúva, ambas aos prantos, procurei imaginar como se age ou que se diz numa hora dessas. Não que eu tivesse alguma obrigação, afinal, nem sabia o nome do patriarca, apenas queria evitar um fiasco diante da moça em pleno funeral antes de firmar compromisso.

Cara a cara com o de cujus, em pensamento, pedi uma bênção para o romance que se iniciava. O velho pareceu entender o recado e emitiu um som semelhante a um peido, só que com a boca. Em seguida expirou o ar derradeiro dos pulmões, atirando longe a bolinha de algodão de uma das narinas. Definitivamente, aquilo era um "não" em forma de suspiro. Sem que ninguém notasse, cobri rapidamente o orifício nasal do falecido, persignei-me e saí de fininho. Direto para o banheiro da capela.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e gostaria de viver eternamente.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e mensagens do além pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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