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Eu quase não
vou à praia. Quase nunca, melhor
dizendo. E nem é por falta de tempo,
não, é porque não gosto mesmo. Sei
lá, em parte por causa da distância,
um pouco por causa do sol, outro
tanto por causa da areia e tem também
a influência da água salgada e das
pessoas em geral sobre o meu humor.
Enfim, nem eu entendo por que ainda
faço coisas das quais sei que me
arrependerei em seguida.
O fato é
que eu precisava diminuir a minha
brancura de "feijão da sombra" para
as festas de fim de ano, então abri
uma exceção no último final de semana.
Escolhi uma praia menos badalada,
longe de tudo, com enorme faixa
de areia, público seleto, mar agitado
que não serve para a petizada e,
por sorte, com um ventinho fresco
para aplacar o calor. A previsão
de temperaturas amenas (diretamente
da central meteorológica de uma
emissora de tevê local que erra
todas) se confirmara: o termômetro
estava a "menas" de trinta graus
às nove e meia da manhã.
Sob o céu
de brigadeiro da ilha de casos e
ocasos raros, durante duas horas,
do alto da minha cadeirinha de alumínio,
presenciei pouquíssimas anomalias
à beira-mar. Um gurizão veio com
a namorada e trouxe o violão. A
julgar pelo tipo de música que tocava,
deve ter trazido também um baseado
mofumbado nos dreadlocks.
Mais adiante, um casal de gaúchos
(deduzi, não sei como) tomava chimarrão.
Amargo, quentinho, tudo a ver com
o nosso semi-árido praiano. E um
simpático vira-lata, perdido na
imensidão, escavava a areia para
brincar com as tatuíras.
Como quem
não quer nada, tomei meu solzinho
no maior sossego, ouvindo o barulhinho
das ondas, lendo um Zuenir Ventura,
abstraindo as adversidades climáticas,
os problemas do trabalho e a falta
de inspiração para escrever a coluna
da semana. Aliás, inspiração que
não tardou.
Quase na
hora de eu ir embora, sem ter colocado
sequer os pés na água gelada e com
o protetor (sabor UVA, fator 70)
vencido, surgiu na praia o meu estímulo
para esta croniqueta de verão: uma
família daquelas que você dá graças
ao Senhor por não ser a sua. Pai,
mãe, casal de filhos, tio gordo
e sogra saltam de um Del Rey com
placa do interior. Isopor com cerveja
e sanduíche natural a tiracolo.
Homem branco, quase transparente,
mulher cor-de-rosa, tiozão no melhor
estilo Tony Ramos (peludo, barrigudo,
sunga florida, "cofrinho" à mostra),
as crianças peladinhas porque
ninguém lembrou de trazer vestimenta
adequada , cada uma com sua
bóia de pneu de caminhão, e a velha
de roupa. Manjam sogra que vai até
a beira do mar com o vestido da
missa para dar banho nas varizes
e acaba molhando a barra da anágua?
Abençoadamente,
como eu disse antes, foi na hora
de ir embora. Nesta minha primeira
e última passagem (na temporada
2008-2009) pelo mais legítimo espaço
democrático que é a praia,
não ficou nenhuma seqüela, apesar
de eu já ter sonhado com isso duas
noites seguidas. Tudo em nome do
bronzeado, digo, do avermelhado.
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