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Era véspera
de Natal quando caiu no poço. Depois
de duas horas e meia disfarçando
a angústia do ano inteiro durante
a confraternização
promovida pela esposa, resolvera
dar uma volta pelo quintal da casa
da sogra. O poço já não tinha função.
Era antigo, esquecido, sem cobertura,
sem mureta, rodeado pelo mato. Pensando
nos amigos pouco íntimos que abandonara
na sala, pisou muito perto da borda
e despencou quase quatro metros
buraco abaixo. Refeito do susto,
abriu os olhos. Tinha os sapatos
enterrados na lama e água até os
joelhos. Ralara os cotovelos e a
palma da mão esquerda. Murmurou
um palavrão e agradeceu, procurando
um pedaço de céu pela nesga de luz
que conseguia enxergar olhando para
o alto, por não ter quebrado uma
perna. Nem gritou nem chamou por
ninguém. Certificou-se de que não
havia cobras, aranhas ou sapos lhe
fazendo companhia e apoiou as costas
na parede de pedra e barro. Suspirou.
Puxou um cigarro, mas não tinha
fogo. Também não tinha certeza se
queria voltar à superfície. Estacionara
sem trancar a saída da garagem,
cumprimentara um por um dos parentes
e conhecidos da família, ganhara
duas semanas de folga no trabalho,
nascera estéril. Então, não. Definitivamente,
não precisava sair de onde estava
agora, tão confortavelmente solitário.
Pensou no livro de Albert Camus
inacabado em sua cabeceira. Lembrou
do beijo de uma ex-namorada e de
quando comprara seu primeiro carro.
Sentiu a fragrância do perfume que
usava aos quinze anos e uma saudade
imensa de tomar leite condensado
direto da lata. Não sabia se queria
ser encontrado. Contou nos dedos
o tempo que faltava para a manhã
seguinte: nove horas. Contou as
estrelas que surgiam pela boca do
poço: duas. Contou, mentalmente,
há quantos anos estava casado com
a segunda mulher: cinco. Chorou.
Dali não ouvia nenhuma música, apenas
o movimento dos próprios pés na
água suja. Deixara um relatório
pela metade no escritório, a conta-conjunta
negativa no banco e um prato com
arroz à grega escondido atrás do
aparelho de som. Não gostava de
passas. Imaginou como seria ter
bigode e um quarto cheio de discos
e livros em vez de computador ou
aparelhos de ginástica. Assoviou
uma velha canção. Desejou plantar
uma árvore, escrever um livro e,
com um pouco de sorte, fazer um
filho na primeira rapariga que tivesse
o sorriso da Drew Barrymore. Perguntava-se
por que nem o sogro nem o cunhado
fecharam aquele poço inútil. Não
agora, com ele ali, claro, mas antes.
Decerto alguém jogaria uma corda
ainda hoje ou amanhã. Decidiu ficar
em silêncio enquanto agüentasse.
Pensou no canário-da-terra aleijado
que, numa tarde de outono, fugira
da gaiola que ele deixara aberta
propositalmente. Lembrou de um filme
francês e das hortênsias no jardim
da casa em que nasceu. Sentiu cheiro
de goiaba madura e vontade de ser
sozinho no mundo. Fechou os olhos.
Perdera a noção do tempo. Não queria
ninguém chamando seu nome durante
a madrugada. Precisava dormir, descansar,
deixar o peso da Terra escorrer
pelas paredes até se dissolver na
pequena lagoa. Ao longe, espocavam
fogos. Era o melhor Natal de sua
vida. Lamentou todos os outros,
profundamente.
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