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  23.12.2008

 
Jingle Bells


Era véspera de Natal quando caiu no poço. Depois de duas horas e meia disfarçando a angústia do ano inteiro durante a confraternização promovida pela esposa, resolvera dar uma volta pelo quintal da casa da sogra. O poço já não tinha função. Era antigo, esquecido, sem cobertura, sem mureta, rodeado pelo mato. Pensando nos amigos pouco íntimos que abandonara na sala, pisou muito perto da borda e despencou quase quatro metros buraco abaixo. Refeito do susto, abriu os olhos. Tinha os sapatos enterrados na lama e água até os joelhos. Ralara os cotovelos e a palma da mão esquerda. Murmurou um palavrão e agradeceu, procurando um pedaço de céu pela nesga de luz que conseguia enxergar olhando para o alto, por não ter quebrado uma perna. Nem gritou nem chamou por ninguém. Certificou-se de que não havia cobras, aranhas ou sapos lhe fazendo companhia e apoiou as costas na parede de pedra e barro. Suspirou. Puxou um cigarro, mas não tinha fogo. Também não tinha certeza se queria voltar à superfície. Estacionara sem trancar a saída da garagem, cumprimentara um por um dos parentes e conhecidos da família, ganhara duas semanas de folga no trabalho, nascera estéril. Então, não. Definitivamente, não precisava sair de onde estava agora, tão confortavelmente solitário. Pensou no livro de Albert Camus inacabado em sua cabeceira. Lembrou do beijo de uma ex-namorada e de quando comprara seu primeiro carro. Sentiu a fragrância do perfume que usava aos quinze anos e uma saudade imensa de tomar leite condensado direto da lata. Não sabia se queria ser encontrado. Contou nos dedos o tempo que faltava para a manhã seguinte: nove horas. Contou as estrelas que surgiam pela boca do poço: duas. Contou, mentalmente, há quantos anos estava casado com a segunda mulher: cinco. Chorou. Dali não ouvia nenhuma música, apenas o movimento dos próprios pés na água suja. Deixara um relatório pela metade no escritório, a conta-conjunta negativa no banco e um prato com arroz à grega escondido atrás do aparelho de som. Não gostava de passas. Imaginou como seria ter bigode e um quarto cheio de discos e livros em vez de computador ou aparelhos de ginástica. Assoviou uma velha canção. Desejou plantar uma árvore, escrever um livro e, com um pouco de sorte, fazer um filho na primeira rapariga que tivesse o sorriso da Drew Barrymore. Perguntava-se por que nem o sogro nem o cunhado fecharam aquele poço inútil. Não agora, com ele ali, claro, mas antes. Decerto alguém jogaria uma corda ainda hoje ou amanhã. Decidiu ficar em silêncio enquanto agüentasse. Pensou no canário-da-terra aleijado que, numa tarde de outono, fugira da gaiola que ele deixara aberta propositalmente. Lembrou de um filme francês e das hortênsias no jardim da casa em que nasceu. Sentiu cheiro de goiaba madura e vontade de ser sozinho no mundo. Fechou os olhos. Perdera a noção do tempo. Não queria ninguém chamando seu nome durante a madrugada. Precisava dormir, descansar, deixar o peso da Terra escorrer pelas paredes até se dissolver na pequena lagoa. Ao longe, espocavam fogos. Era o melhor Natal de sua vida. Lamentou todos os outros, profundamente.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e tem medo do Papai Noel.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e vales-presente pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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