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  19.02.08

 
Moça de Família com Havaianas nos Pés  


Eu gosto mesmo é das moças de família que usam sandálias Havaianas. Das que caminham sozinhas na chuva, então, gosto mais ainda.

É coisa minha, desde muito tempo. Tenho um fraco por aquelas meninas entre vinte e trinta anos de idade que ainda moram com os pais, que ajudam a mãe e a avó com as sacolas do supermercado ou que sempre são escolhidas pra comprar o pão ao entardecer.

É que elas andam sem bolsa, sem carteira, sem celular. Levam só o dinheiro dobrado no bolso de trás. Ninguém sabe ao certo se trabalham ou estudam, mas no fim do dia tiram os sapatos, fazem um rabo-de-cavalo, calçam as sandálias e partem a cumprir alguma tarefa nas redondezas.

São quase todas iguais, como se tivessem estabelecido um padrão: camiseta ou blusinha, calça jeans, Havaianas. E cabelo preso, sempre preso. Não têm espinhas no rosto, não sorriem à toa, não usam maquiagem. Nunca mostram do corpo mais do que deve ser mostrado, nunca falam com estranhos mais do que o necessário, nunca enfrentam um olhar mais do que o suficiente pra nos deixar sem jeito.

São misteriosas demais. Dão a impressão de que nunca namoram, de que não saem à noite, de que são inalcançáveis. Pois acho que são mesmo, senão não seriam de família. Aliás, está pra nascer marmanjo que consiga fazer balançar o coração de uma rapariga dessas.

Em dia de chuva, as moças de família que usam Havaianas não dividem a sombrinha com ninguém. Molham os pés porque não abrem mão da sandália de dedo.

Só não se pode confundi-las com outras categorias de mulheres solitárias: as domésticas são mais relaxadas, não têm o mesmo charme nem a pele tão branca (que é característica de menina caseira), e as casadas e independentes não têm o mesmo frescor, a mesma pureza.

Elas são ainda mais atraentes porque são discretas.

Assistem a novela, mas também lêem livros. Fazem questão de esconder a inteligência e a beleza. Não querem papo com galãs de quaresma de oito braços, cheios de segundas intenções, nem com caras legais e sensíveis como eu.

Elas não têm e-mail, não fazem amigos virtuais e não lêem a minha coluna. As moças de família com Havaianas nos pés, na verdade, não estão nem aí. Serão deste mundo?

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e namorou muito nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e ex-conquistador barato.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e cantadas pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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