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  26.02.08

 
Pimba na Gorduchinha  


Dia desses eu discutia futebol com um grandessíssimo amigo de esbórnia, o fotógrafo Murilo Souza. Uma discussão diferente, é verdade, em que nenhum time foi citado e nenhum campeonato em andamento entrou na pauta.

Era ele dizendo que o futebol podia muito bem se acabar, que não faria falta a ninguém, e eu defendendo que o esporte bretão, querendo ou não (desculpem, não era pra rimar), continua sendo o ópio do povo, que não dá pra viver sem um joguinho de vez em quando.

Obviamente, quase como numa mesa redonda depois da rodada, não chegamos a um acordo, e cada parte manteve a sua opinião.

Agora que o Murilo está longe e não pode dar pitaco no meu texto, sou obrigado a concordar que não há nada mais insuportável do que marmanjo que só fala de futebol, que usa a camisa do time em eventos sociais, que assiste dez vezes aos gols da rodada ou que sai buzinando o carro quando a equipe rival perde um jogo. Mas não posso deixar de lembrar que, se não fosse a paixão dos brasileiros pelo ludopédio (acreditem, era pra ser assim em português), todas as atenções estariam voltadas para o Congresso Nacional ou para a novela das oito.

E, convenhamos, se o objetivo é desperdiçar tempo, que pelo menos seja de forma prazerosa e competitiva.

Apesar do Galvão Bueno, futebol é mais divertido: tem Ricardo Teixeira e Eurico Miranda em vez de Lula e José Dirceu, tem Romário e Alexandre Pato em vez de Suzana Vieira e Letícia Spiller; apresenta melhor custo-benefício: dura noventa minutos, contra quarenta e cinco de um folhetim qualquer; é de uma incrível regularidade: vai de terça a domingo, com folga às segundas; e faz bem à saúde: movimenta todos os dois neurônios na hora de sintonizar o radinho de pilha numa rádio AM.

O Murilo acha que a extinção do futebol obrigaria os homens a fazerem coisas mais interessantes da vida, mas admite que isso poderia elevar os índices de criminalidade. Faz sentido, não é difícil imaginar a quantidade de flanelinhas em potencial que se divide entre a arquibancada e o gramado num dia de clássico, por exemplo.

Pois eu já acho que, sem espetáculo, haveria o perigo iminente do aumento da taxa natalidade (se é que me entendem), porém, o risco de surgirem novos intelectuais é que seria o fator preocupante.

Não fosse pela "excelente" campanha do meu time no Campeonato Catarinense, eu já teria terminado o livro do Camus que está rolando há duas semanas na minha cabeceira.

Preciso discutir isso com o Murilo também.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e jogou bola na rua nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e ex-reserva do Colegial.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e palpites da Loteca pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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