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  04.03.08

 
Das Picardias Infantis  


Crianças não são o meu assunto predileto. No entanto, são elas que rendem as melhores e mais inusitadas histórias. Com um pouco de sorte, rendem até três boas histórias no mesmo dia: uma pela manhã, uma à tarde e mais uma no começo da noite.

Cinderela, displicente, tirava meleca do nariz; Branca de Neve, que chegara atrasada, tomava uma Fanta Uva direto no gargalo; Chapeuzinho Vermelho, desprovida de vaidade, usava óculos de grau; mais ao fundo, um Zorro descabelado gritava para um Peter Pan obeso: "Larga essa bola, seu bastardo sem-vergonha".

Assim como você que está lendo esta coluna, eu também achei que estava ficando maluco. Não eram nem oito horas da manhã e a molecada da escolinha do bairro (que fica no meu caminho para o trabalho) já estava toda empolgada aguardando o início do primeiro baile à fantasia do ano. Coisa divertidíssima de se ver. De longe, claro.

Parece que “em novembro vai ter outro”, ouvi a professora Sininho cochichar para a Bruxa Malvada, sua assistente. Ainda bem que eu soube antes, pelo menos, da próxima vez, não fico imaginando que alguém lá em casa pôs bebida no meu Nescauzinho logo cedo.

Fim de tarde. Saída da escolinha do bairro (que fica no meu caminho de volta para casa). Um simpático velhinho ia à minha frente pela calçada, de mãos dadas com seu neto, que não devia ter mais de seis ou sete anos e era pouca coisa maior do que a própria mochila.

O ancião coruja, de cabelos totalmente brancos e andar vagaroso, fazia perguntas ao piá. Eu, curioso, ultrapassei os dois para tentar ouvir melhor o pitoresco diálogo.

– O que foi que a professora ensinou hoje, Gustavinho?
– Prê-fi-qui-ssôs.
– Hein?
– Prefixos, vovô.
– Ah, prefixos...
– Isso, prefixos.
– Existem muitos prefixos, não é mesmo?
– Um montão, vovô, é uma coisa inacreditável, inexplicável e infinita.

À noite, depois de verificar a correspondência, corri para não perder o elevador. Do lado de dentro já estavam o zelador do prédio e a sua estranha filhinha, uma criança loira (pouco mais nova que o Gustavinho), que ele acabara de buscar na escolinha do bairro.

Fazia meses que eu não encontrava o homem com a menina, então, em vez de falar sobre o clima ou sobre as horas, resolvi puxar uma conversa mais criativa para os padrões do condomínio.

– Nossa, como cresceu essa tua guria, hein?
– É, mais ou menos.
– Cresceu, sim, deu uma espichada boa...

Nisso a pirralhinha me cutuca na altura da coxa e, quando olho para baixo, arremata seriamente:

– Deve ser porque eu estou calçando botas, o salto me deixa mais alta.

Putz!, pensei com os meus botões. Era uma punição, um castigo, só podia ser. Um tapa com luva de pelica em nome de todas as crianças que eu ignorei durante a vida inteira.

E sobre as que ainda pretendo ignorar, nem tive tempo de imaginar quais lições elas me reservam. Fui saindo de fininho logo que o elevador parou.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e também já foi guri.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e algodão doce pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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