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Crianças não são
o meu assunto predileto. No entanto,
são elas que rendem as melhores
e mais inusitadas histórias.
Com um pouco de sorte, rendem até
três boas histórias
no mesmo dia: uma pela manhã,
uma à tarde e mais uma no
começo da noite.
Cinderela, displicente, tirava meleca
do nariz; Branca de Neve, que chegara
atrasada, tomava uma Fanta Uva direto
no gargalo; Chapeuzinho Vermelho,
desprovida de vaidade, usava óculos
de grau; mais ao fundo, um Zorro
descabelado gritava para um
Peter Pan obeso: "Larga essa
bola, seu bastardo sem-vergonha".
Assim como você que está
lendo esta coluna, eu também
achei que estava ficando maluco.
Não eram nem oito horas da
manhã e a molecada da
escolinha do bairro (que fica no
meu caminho para o trabalho) já
estava toda empolgada aguardando
o início do primeiro baile
à fantasia do ano. Coisa
divertidíssima de se ver.
De longe, claro.
Parece que “em novembro vai
ter outro”, ouvi a professora
Sininho cochichar para a Bruxa
Malvada, sua assistente. Ainda bem
que eu soube antes, pelo menos, da
próxima vez, não fico
imaginando que alguém lá
em casa pôs bebida no meu Nescauzinho
logo cedo.
Fim de tarde. Saída da escolinha
do bairro (que fica no meu caminho
de volta para casa). Um simpático
velhinho ia à minha frente
pela calçada, de mãos
dadas com seu neto, que não
devia ter mais de seis ou sete anos
e era pouca coisa maior do que a
própria mochila.
O ancião coruja, de cabelos
totalmente brancos e andar vagaroso,
fazia perguntas ao piá. Eu,
curioso, ultrapassei os dois para tentar
ouvir melhor o pitoresco diálogo.
– O que foi que a professora
ensinou hoje, Gustavinho?
– Prê-fi-qui-ssôs.
– Hein?
– Prefixos, vovô.
– Ah, prefixos...
– Isso, prefixos.
– Existem muitos prefixos,
não é mesmo?
– Um montão, vovô,
é uma coisa inacreditável,
inexplicável e infinita.
À noite, depois de verificar
a correspondência, corri para
não perder o elevador. Do
lado de dentro já estavam
o zelador do prédio e a sua
estranha filhinha, uma criança
loira (pouco mais nova que o Gustavinho),
que ele acabara de buscar na escolinha
do bairro.
Fazia meses que eu não encontrava
o homem com a menina, então,
em vez de falar sobre o clima ou
sobre as horas, resolvi puxar uma
conversa mais criativa para os padrões
do condomínio.
– Nossa, como cresceu essa
tua guria, hein?
– É, mais ou menos.
– Cresceu, sim, deu uma espichada
boa...
Nisso a pirralhinha me cutuca
na altura da coxa e, quando olho
para baixo, arremata seriamente:
– Deve ser porque eu estou
calçando botas, o salto me
deixa mais alta.
Putz!, pensei com os meus botões.
Era uma punição, um
castigo, só podia ser. Um
tapa com luva de pelica em nome
de todas as crianças que
eu ignorei durante a vida inteira.
E sobre as que ainda pretendo ignorar,
nem tive tempo de imaginar quais
lições elas me reservam.
Fui saindo de fininho logo que o
elevador parou.
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