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  18.03.08

 
Bovídeo Show  


Tem gente que acha pouco recomendável arranjar confusão ou discutir assuntos polêmicos durante a Semana Santa. Pois eu não acho. Tenho pavor de hipocrisia e fico com vontade de sentar a mão em quem tem duas caras, em quem apronta o ano inteiro, e depois vem dar uma de madre Polyana de Calcutá nos feriados religiosos.

O contrário também é grave, muito grave, praticamente uma doença. Respeitáveis pais de família, trabalhadores dedicados, bons vizinhos, amantes gentis, menestréis da moral e dos bons costumes, não podem sentir a aproximação de uma data comemorativa que já se transformam em tudo aquilo que, no fundo, são de verdade: uns bobalhões.

Mas eis onde eu queria chegar: na farra-do-boi em Santa Catarina.

Sobre a abominável palhaçada, praticada pelos tipinhos mais detestáveis da raça humana, não vou ficar em cima do muro, não. Assim como a briga de galos e o jogo do bicho, essa brincadeira de mau-gosto é crime, está na lei 153.531-8 de 1997, portanto, não pode e pronto. Brasileiro (sobretudo o intelectualmente desprovido) é que tem essa mania estúpida de ser do contra, de querer fazer justamente o que é proibido.

Maconha, por exemplo. Quem defende a descriminação da droga, geralmente, são os próprios maconheiros de plantão. Lei seca em dia de eleição, outro exemplo. O cara tem o ano inteiro pra tomar todas, mas cisma de beber bem na véspera do pleito. Então, no caso da farra-do-boi, os delinqüentes que perpetuam uma tradição tão cretina querem mesmo é a perseguição da polícia, a discussão de nível duvidoso e a cobertura da imprensa. Aliás, sobre esta última, tenho lá minhas dúvidas se não tem emissora de televisão que ajuda a promover o “evento” só pra mostrar imagens exclusivas no noticiário do dia seguinte.

Aí vem alguém (do lado oposto) dizer que ninguém faz nada contra as touradas ou contra os rodeios. Não importa, cada um na sua. As touradas são promovidas apenas em Portugal, na Espanha e no México, é questão de tempo que se acabem. Sem contar que em Portugal, em vez do toureiro espetar o bicho com flechas ou espadas, usa uma espécie de dardo com ponta de velcro, que gruda no pêlo do animal, sem feri-lo, e dá uma vitória apenas moral ao toureador. Já os rodeios, infelizmente, estão legalizados, não há o que contestar por enquanto, a não ser o incrível gosto musical estragado das prendas e dos peões.

Do lado de cá, por sua vez, um outro vai lembrar que todo ano morre gente inocente durante a bizarra patuscada de origem açoriana. Mero acaso. Na Fenasoft e no Salão do Automóvel também já morreu gente inocente (de parada cardíaca, de choque elétrico, de queda de andaime, etc.) e lá, que eu saiba, não tinha boi nenhum.

Só que não há dois lados, é uma questão ululantemente lógica a qualquer pessoa de boa índole. Não podemos perpetuar as tradições que são fruto da ignorância reinante na época em que viveram os nossos antepassados. As coisas mudam, normalmente evoluem, é o que acreditamos quase todos nós. Boi-de-mamão não prejudica ninguém, pau-de-fita não faz cair a Bovespa, pastel de Santa Clara não causa danos à saúde, malhar o Judas até desopila o fígado, mas farra-do-boi é crime e o motivo é simples: o pobre animal não tem nada a ver com as frustrações do homem e não está ali espontaneamente, nem pra cumprir sua função na cadeia alimentar nem, muito menos, pra se divertir.

O que me consola é que se eu digitar www.farradoboi.com.br no meu navegador, abrir-se-á (me perdoem a conjugação verbal) o site de uma escola de samba do Espírito Santo, e não de uma ONG ou de uma associação comercial que lucra com o sofrimento de outrem (mesmo que o “outrem” seja um bovino mais íntegro do que muitos habitantes do nosso Estado). A farra dos capixabas todo mundo vai aprovar, aposto.

Quanto aos farristas daqui, aqueles desocupados que envergonham os outros catarinenses, recomendo, sinceramente, que nesta Páscoa deixem em paz os pobres animais, inclusive o coelhinho, e sigam o meu sábio conselho: vão sentar numa cenoura, vão.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e primo do Oxman.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e doações pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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