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Quando eu
era criança fui vizinho de um louco.
Nem sei se era mesmo louco, desses
que precisam de camisa-de-força
e internação em hospício, mas como
todo mundo afirmava que o rapaz
era louco, eu acreditava e repetia:
O moço aí do lado
é louco! Parece que batia na mãe
e nos irmãos, gritava com quem passasse
na calçada em frente à sua janela
e, às vezes (dava para ouvir de
longe), cantarolava uma música do
Silvio Brito, cuja letra era mais
ou menos assim: "Espelho meu, espelho
meu, diga se no mundo existe alguém
mais louco do que eu". Obviamente,
tanto eu quanto a minha família
inteira mantínhamos distância da
casa do maluco. Um muro mais alto,
com cacos de vidro em cima, foi
construído para separar os dois
quintais e grades de ferro passaram
a reforçar as aberturas do andar
inferior. Tudo para que o desajustado
não chegasse perto de nós com a
sua loucura contagiosa.
Anos mais
tarde, logo que nos mudamos para
um bairro diferente, para um sobrado
mais bonito e espaçoso do
que o antigo, descobri que o morador
do outro lado da rua também era
louco. Talvez não fosse do tipo
que oferece perigo imediato à sociedade,
só que muita coisa se falava a respeito
do homem. Criava galinhas, um cavalo
e tinha uma carroça. Andava pelo
bairro fuçando nos sacos de lixo,
recolhendo garrafas, ferro retorcido
e pedaços de azulejo. Ainda que
nunca houvesse demonstrado agressividade
nem emitido nenhum som desde que
passáramos a residir em frente,
as senhoras costumavam virar-lhe
o rosto, enquanto os meninos caçoavam
das ceroulas que ele próprio
lavava e estendia no varal quando
abria o sol. Eu não estava convencido,
mas ratificava: Esse velho
é louco! Então, por causa
de sua solitária esquisitice, nossas
portas e portões permaneciam trancados
na maior parte do tempo.
Na adolescência
passei a viver em edifício. A cidade
estava crescendo e já era preciso
pensar na segurança da família.
Em vez de jogar bola na várzea
com os amigos eu jogava futebol
de botão com o meu avô. A televisão
tornou-se uma grande companheira
nos intervalos entre as descidas
de hora em hora ao playground
do prédio. O único alerta aos condôminos
era tácito: Cuidado, o zelador
é louco! Não que o homem não fizesse
seu trabalho direito, muito pelo
contrário. Retirava o lixo, varria
o pátio, distribuía a correspondência...
mas cultivava uma barba enorme e
desgrenhada, além de colecionar
livros. Eram tantos, comprados diariamente
nos sebos das redondezas, que até
o salão de festas acabou virando
biblioteca. Eu mesmo cheguei a pegar
uns Monteiros Lobatos emprestados
sem que meus pais soubessem, embora
sempre ficasse receoso no momento
de devolvê-los ao demente.
Atualmente,
com a vida ganha e tempo de sobra
para dedicar à escrita e à leitura,
escolhi um bairro afastado, tranquilo
e seguro para morar. A vizinhança
é pacata, de gente normal, ao que
tudo indica. E a proximidade com
o mar tem me trazido inspiração,
apesar de eu jamais ter colocado
os pés na areia da praia. Do meu
pequeno apartamento costumo sair
pouco, apenas para caminhar ou ir
até a padaria. Não conheço ninguém
e ninguém me conhece. Ainda ontem,
uma mãe e sua filha esperavam o
elevador ao meu lado na portaria.
Como não me cumprimentaram, também
não as cumprimentei. Sem motivo
aparente, desistiram de subir comigo
quando segurei a porta para elas.
Apertei o meu andar e segui viagem.
Certas de que eu me afastara o suficiente,
entreolharam-se. De longe, ouvi
uma cochichar confidencialmente
no ouvido da outra: Esse
aí é o louco do 201!
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