O Endereço de Florianópolis na Internet
Guia Floripa  > Anacrônicas

  06.01.2009

 
Faculdades Mentais


Quando eu era criança fui vizinho de um louco. Nem sei se era mesmo louco, desses que precisam de camisa-de-força e internação em hospício, mas como todo mundo afirmava que o rapaz era louco, eu acreditava e repetia: – O moço aí do lado é louco! Parece que batia na mãe e nos irmãos, gritava com quem passasse na calçada em frente à sua janela e, às vezes (dava para ouvir de longe), cantarolava uma música do Silvio Brito, cuja letra era mais ou menos assim: "Espelho meu, espelho meu, diga se no mundo existe alguém mais louco do que eu". Obviamente, tanto eu quanto a minha família inteira mantínhamos distância da casa do maluco. Um muro mais alto, com cacos de vidro em cima, foi construído para separar os dois quintais e grades de ferro passaram a reforçar as aberturas do andar inferior. Tudo para que o desajustado não chegasse perto de nós com a sua loucura contagiosa.

Anos mais tarde, logo que nos mudamos para um bairro diferente, para um sobrado mais bonito e espaçoso do que o antigo, descobri que o morador do outro lado da rua também era louco. Talvez não fosse do tipo que oferece perigo imediato à sociedade, só que muita coisa se falava a respeito do homem. Criava galinhas, um cavalo e tinha uma carroça. Andava pelo bairro fuçando nos sacos de lixo, recolhendo garrafas, ferro retorcido e pedaços de azulejo. Ainda que nunca houvesse demonstrado agressividade nem emitido nenhum som desde que passáramos a residir em frente, as senhoras costumavam virar-lhe o rosto, enquanto os meninos caçoavam das ceroulas que ele próprio lavava e estendia no varal quando abria o sol. Eu não estava convencido, mas ratificava: – Esse velho é louco! Então, por causa de sua solitária esquisitice, nossas portas e portões permaneciam trancados na maior parte do tempo.

Na adolescência passei a viver em edifício. A cidade estava crescendo e já era preciso pensar na segurança da família. Em vez de jogar bola na várzea com os amigos eu jogava futebol de botão com o meu avô. A televisão tornou-se uma grande companheira nos intervalos entre as descidas de hora em hora ao playground do prédio. O único alerta aos condôminos era tácito: – Cuidado, o zelador é louco! Não que o homem não fizesse seu trabalho direito, muito pelo contrário. Retirava o lixo, varria o pátio, distribuía a correspondência... mas cultivava uma barba enorme e desgrenhada, além de colecionar livros. Eram tantos, comprados diariamente nos sebos das redondezas, que até o salão de festas acabou virando biblioteca. Eu mesmo cheguei a pegar uns Monteiros Lobatos emprestados sem que meus pais soubessem, embora sempre ficasse receoso no momento de devolvê-los ao demente.

Atualmente, com a vida ganha e tempo de sobra para dedicar à escrita e à leitura, escolhi um bairro afastado, tranquilo e seguro para morar. A vizinhança é pacata, de gente normal, ao que tudo indica. E a proximidade com o mar tem me trazido inspiração, apesar de eu jamais ter colocado os pés na areia da praia. Do meu pequeno apartamento costumo sair pouco, apenas para caminhar ou ir até a padaria. Não conheço ninguém e ninguém me conhece. Ainda ontem, uma mãe e sua filha esperavam o elevador ao meu lado na portaria. Como não me cumprimentaram, também não as cumprimentei. Sem motivo aparente, desistiram de subir comigo quando segurei a porta para elas. Apertei o meu andar e segui viagem. Certas de que eu me afastara o suficiente, entreolharam-se. De longe, ouvi uma cochichar confidencialmente no ouvido da outra: – Esse aí é o louco do 201!

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e se considera normal.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas e sugestões muito doidas pelo e-mail: dogman@uol.com.br

Colunas Anteriores

30.12.08 / Desejos de Ano-Bom
23.12.08 / Jingle Bells
16.12.08 / Camarão é a mãe!
09.12.08 / De Cujus
02.12.08 / Educação Infantil

25.11.08 / Verborragia
18.11.08 / Como perder uma mulher em 10 dias
11.11.08 / Ficus Benjamina
04.11.08 / Perdido no Supermercado
28.10.08 / Imperfeição
21.10.08 / Mistureba
14.10.08 / Pergunte ao Cachorrão
07.10.08 / Letra & Música
30.09.08 / A Bibliotecária
23.09.08 / Mercado Imobiliário
16.09.08 / Morrer de Amor
09.09.08 / Guru de Pais e Mestres
02.09.08 / Justiça do Trabalho
26.08.08 / Mulher de Fases
19.08.08 / Crônica Esfarrapada
12.08.08 / Ovos Frescos
05.08.08 / O Ócio Ocioso
29.07.08 / Da Inutilidade das Campanhas Educativas
22.07.08 / Três Palavras
15.07.08 / Estética
08.07.08 / Olha quem (não) está pegando!
01.07.08 / Tecnologia
24.06.08 / Comunicação
17.06.08 / Da Frutificação dos Furtos Furtivos
10.06.08 / Doze de Junho
03.06.08 / Os Verdadeiros Anos 80 (Carta aos Jovens)
27.05.08 / Le Pastiche
20.05.08 / I Wanna Be Your Dog
13.05.08 / Abaixo a Resiliência
06.05.08 / Mistério, Luxúria e Crueldade na Terra do Sol Nascente
29.04.08 / Coração Disléxico
22.04.08 / Clube de Casais
15.04.08 / Uma Crônica de Sonho
08.04.08 / Machos de Respeito
01.04.08 / O Estranho Casal
25.03.08 / Boa Forma (de Quibe)
18.03.08 / Bovídeo Show
11.03.08 / Mad About You
04.03.08 / Das Picardias Infantis
26.02.08 / Pimba na Gorduchinha

19.02.08 / Moça de Família com Havaianas nos Pés
12.02.08 / Turista Acidental
05.02.08 / Folia & Cinzas
29.01.08 / Dia da Saudade
22.01.08 / O Tapete Voador


Indique o Guia Floripa para um amigo Clique aqui e indique esta coluna para um amigo.


As informações contidas nesta coluna são de responsabilidade do
autor e não refletem, necessariamente, a opinião do Guia Floripa.

    

Copyright© 1996 - 2010 Guia Floripa
Todos os direitos reservados
Fale conosco