|
Não que eu
seja um ás no idioma de Camões.
No entanto, desde a virada do ano,
tenho recebido muitos e-mails de
leitores com dúvidas sobre o novo
acordo ortográfico da Língua Portuguesa.
Então resolvi usar a minha coluna
para contribuir com as vítimas de
mais esta grande bobagem sancionada
pelo presidente Lula e pelos governantes
de meia dúzia de países que, com
todo o respeito, nem aparecem no
mapa-múndi.
01.
De: Prenda Minha - Porto Alegre/RS
Dogman,
sou moradora da capital gaúcha e
gostaria de saber de ti se a reforma
vale para o Brasil todo. Continuaremos
usando trema aqui no Sul?
R.:
Amiga gaudéria, agora no verão não
será necessário, mas quando chegar
o inverno, caso você não saia de
casa bem agasalhada, é capaz que
trema um pouco, pois o frio do Rio
Grande do Sul é de lascar. Também
o seu príncipe encantado poderá
usá-lo quando for socorrê-la em
alguma situação de perigo extremo.
Ex.: Não trema, minha donzela!
02.
De: Matusalém de Souza - São Tomé
das Letras/MG
Excelentíssimo Cachorrão, em relação
ao uso do hífen, como fica, doravante,
a grafia das palavras "circum-navegação",
"neo-helênico", "bem-aventurança"
e "amá-la-ei"?
R.:
Caro ancião, todas as palavras (corriqueiras,
por sinal) estão corretas,
não se preocupe. Aliás, sua pergunta
foi apenas para me testar, não foi?
Por curiosidade, quantos anos o
senhor tem? Noventa? Não me diga
que participou das negociações do
primeiro acordo ortográfico
entre Brasil e Portugal em 1931?
Que finório, tentando ludibriar-me
ardilosamente!
Agora já sabe, vovô: "sagacidade"
é o meu nome do meio.
03.
De: Mariposa Apaixonada de Guadalupe
- Rio de Janeiro/RJ
Querido Dogman, primeiro questionei
ao inútil do meu marido, que passa
o dia cochilando e não serve
nem para cortar a grama do jardim;
mas como ele não soube responder,
resolvi perguntar a você: em que
casos os ditongos abertos receberão
acento daqui para frente?
R.:
Caríssima MAG, continuarão sendo
acentuados os ditongos abertos das
palavras oxítonas e dos monossílabos
tônicos, só que isso não importa
neste momento. Mesmo que o seu jardineiro
mostre mais habilidades com a língua
do que o seu esposo, se você
quiser que o casamento dure eternamente,
apenas siga o meu sábio conselho:
Mais vale um ditongo preguiçoso
que pague as contas do mês na mão
do que um tritongo crescente com
a braguilha aberta no quintal.
04.
De: Dona Ivete - Salvador/BA
Seu Dogma, sempre tive pobremas
pra falar brasileiro porque casei
cedo e passo muito tempo intertida
com as criança. Será que precisarei
aprender uma vareiedade de palavras
novas? Quanto menas melhor, né?
R.:
Prezada soteropolitana, o novo acordo
ortográfico afetou somente meio
por cento das palavras da Língua
Portuguesa, porém, recomendo que
você faça uma revisão das outras
99,5% no supletivo mais próximo
de sua casa. Não sei se você sabe,
mas cada vez que alguém fala ou
escreve uma palavra errada no nosso
idioma, o filólogo Antônio Houaiss
(um dos mentores da reforma) se
revira no túmulo. Atualmente, no
céu, o pobre coitado é mais conhecido
pela alcunha de Antônio Piorra.
|