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  27.01.2009

 
Solange (So Lonely)


Já não era mais criança. Muito pelo contrário, acabara de completar trinta anos. E aos trinta anos as meninas precisam fazer de conta que são mulheres. Solitária, sem parentes na cidade, desejava apenas não chegar aos quarenta sem ter se apaixonado. Os homens, até então, entravam em sua vida e saíam dela como escovas de dente que precisam ser substituídas sempre que as cerdas se deformam. Talvez o olho esquerdo ligeiramente caído e a cicatriz no queixo fossem o seu charme, mas de nada adiantava ser diferente na aparência e absolutamente comum no intelecto. Suas limitações se revelavam rápido, depois de três ou quatro meses de relacionamento. Assim, descerrada a máscara, não possuía carisma nem criatividade para manter-se atraente. Pouco seletiva, dava-se melhor com os morenos, não entendia bem o motivo. Considerava os loiros complicados, os ruivos insossos e os mulatos pegajosos demais. Não fumava. Bebia todas as noites, tanto sozinha quanto acompanhada. E uma vez por semana, embriagada, ligava para o celular de algum ex-namorado. Tinha esperança de que um deles voltasse para ela, subitamente, durante um final de semana, mesmo que fosse apenas pelo sexo. Apesar da idade, não sabia exatamente a diferença entre simpatizar e gostar. Sabia somente que não amava ninguém. E que ninguém a amava. Uma vez ou outra deixava cair as lentes de contato no ralo da pia. Chorava muito. Sorria bem menos agora do que há dez anos, quando fugiu de casa para correr o mundo. Nunca havia saído da Região Sul, mas pensava em viajar para Minas Gerais qualquer dia. Tivera sua única experiência homossexual com uma amiga de Belo Horizonte. Não se arrependia. Falava pouco, cada vez menos. Separava o lixo orgânico do lixo reciclável. Lia a coluna do Contardo Calligaris e fazia análise. Frequentava bares para solteiros e se adaptara bem à camisinha feminina. Ultimamente estava interessada no vizinho do andar de cima, com quem pegava o elevador quase todas as manhãs. Tinha tudo planejado, caso ele não correspondesse até a próxima sexta-feira. Fecharia todas as janelas do apartamento e tomaria seus habituais sedativos, não sem antes ligar cuidadosamente o gás. Afinal, já não era mais criança.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e compreende as mulheres.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas e sugestões também em seu blog: dogman.zip.net

Colunas 2009

20.01.09 / Autoajuda Antiofídica
13.01.09 / Pergunte ao Dogman: Novo Acordo Ortográfico
06.01.09 / Faculdades Mentais


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