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Já não era
mais criança. Muito pelo contrário,
acabara de completar trinta anos.
E aos trinta anos as meninas precisam
fazer de conta que são mulheres.
Solitária, sem parentes na cidade,
desejava apenas não chegar aos quarenta
sem ter se apaixonado. Os homens,
até então, entravam em sua vida
e saíam dela como escovas de dente
que precisam ser substituídas sempre
que as cerdas se deformam. Talvez
o olho esquerdo ligeiramente caído
e a cicatriz no queixo fossem o
seu charme, mas de nada adiantava
ser diferente na aparência e absolutamente
comum no intelecto. Suas limitações
se revelavam rápido, depois de três
ou quatro meses de relacionamento.
Assim, descerrada a máscara, não
possuía carisma nem criatividade
para manter-se atraente. Pouco seletiva,
dava-se melhor com os morenos, não
entendia bem o motivo. Considerava
os loiros complicados, os ruivos
insossos e os mulatos pegajosos
demais. Não fumava. Bebia todas
as noites, tanto sozinha quanto
acompanhada. E uma vez por semana,
embriagada, ligava para o celular
de algum ex-namorado. Tinha esperança
de que um deles voltasse para ela,
subitamente, durante um final de
semana, mesmo que fosse apenas pelo
sexo. Apesar da idade, não sabia
exatamente a diferença entre simpatizar
e gostar. Sabia somente que não
amava ninguém. E que ninguém a amava.
Uma vez ou outra deixava cair as
lentes de contato no ralo da pia.
Chorava muito. Sorria bem menos
agora do que há dez anos, quando
fugiu de casa para correr o mundo.
Nunca havia saído da Região Sul,
mas pensava em viajar para Minas
Gerais qualquer dia. Tivera sua
única experiência homossexual com
uma amiga de Belo Horizonte. Não
se arrependia. Falava pouco, cada
vez menos. Separava o lixo orgânico
do lixo reciclável. Lia a coluna
do Contardo Calligaris e fazia análise.
Frequentava bares para solteiros
e se adaptara bem à camisinha feminina.
Ultimamente estava interessada no
vizinho do andar de cima, com quem
pegava o elevador quase todas as
manhãs. Tinha tudo planejado, caso
ele não correspondesse até a próxima
sexta-feira. Fecharia todas as janelas
do apartamento e tomaria seus habituais
sedativos, não sem antes ligar cuidadosamente
o gás. Afinal, já não era mais criança.
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