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  10.02.2009

 
O Crime do Fluss Azul Ativo


Lá na empresa têm acontecido umas coisas estranhas. Estranhamente, eu tenho recebido menos do que gostaria e trabalhado mais do que o recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Mas não é disso que quero falar hoje, não. O caso mais recente envolveu o bastão sanitário (aquele que fica numa cestinha e deixa a água azulada) do banheiro masculino. Um grande mistério, solucionado por mim na última semana.

Algum marmanjo do mesmo setor, aparentemente por medo, nojo, convicção religiosa ou trauma de infância, quando ia fazer xixi, retirava a cestinha com o refil e a colocava no chão, ao lado da privada. A nossa dedicada faxineira, dona Gertrudes, na maior boa vontade, ao reparar, limpava o piso manchado e punha de volta o "cheirinho" na borda do bacio. Às vezes, no mesmo expediente ou, no máximo, no dia seguinte, estava o troço no chão de novo, sempre na mesma posição.

Cogitou-se, em reunião com a diretoria, instalar uma câmera oculta no toalete, mas o pessoal da empresa de vigilância já foi avisando que cobraria 50% a mais para fazer esse tipo de monitoramento. Então, a solução imediata foi redobrar a atenção no entra e sai de frequentadores com excesso de água no joelho, se é que me entendem.

Histórias acerca do desodorizador higiênico eu conhecia muitas, como a da Daniela, uma amiga de Porto Alegre, cujo vaso cheirava a urina diuturnamente, sem que ela conseguisse imaginar o motivo, pois vivia colocando pedras e bastões sanitários na borda da cerâmica. Até o momento em que entrou de supetão no banheiro e flagrou o namorado mijando, mirando na cestinha e comemorando, entusiasmado e sacolejante, a cada acerto no fragrante alvo.

Mas igual ao caso da empresa eu nunca ouvira falar. No entanto, o tal segredo, que se estendia por quase três meses, foi desvendado meio sem querer, no dia em que fui à cozinha buscar um copo d'água. Dona Gertrudes, uma senhora alemã, que havia sido governanta de Salvador Allende antes de vir para o Brasil, esquecera sua garrafa térmica particular aberta sobre a pia. O aroma era inconfundível e não deixava dúvidas: tratava-se do famoso "café dos andes", preparado com 50ml de leite condensado, 100ml de creme de leite, 200ml café expresso, 50ml de vinho do porto e 20ml de conhaque, no qual os ingredientes devem ser batidos no liquidificador, menos o conhaque, que vai por último, por cima, flambado diretamente na taça ou caneca. Anotaram?

Eis o que eu queria revelar: – A velha faxineira, após o desjejum reforçado, retirava o acessório com o refil todas as manhãs para limpar a privada e esquecia de recolocá-lo no lugar. Mais tarde, novamente sóbria, parava na porta do setor, colocava as duas mãos na cintura e esbraveja com seu carregado sotaque germânico: Eu quererrr saberrr quem foi o desgraçada que tirou o porra da cestinha do badezimmer outrrra vez!

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e sempre levanta a tampa.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e enigmas pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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