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Lá na empresa
têm acontecido umas coisas estranhas.
Estranhamente, eu tenho recebido
menos do que gostaria e trabalhado
mais do que o recomendado pela Organização
Mundial de Saúde. Mas não é disso
que quero falar hoje, não. O caso
mais recente envolveu o bastão sanitário
(aquele que fica numa cestinha e
deixa a água azulada) do banheiro
masculino. Um grande mistério, solucionado
por mim na última semana.
Algum marmanjo
do mesmo setor, aparentemente por
medo, nojo, convicção religiosa
ou trauma de infância, quando ia
fazer xixi, retirava a cestinha
com o refil e a colocava no chão,
ao lado da privada. A nossa dedicada
faxineira, dona Gertrudes, na maior
boa vontade, ao reparar, limpava
o piso manchado e punha de volta
o "cheirinho" na borda do bacio.
Às vezes, no mesmo expediente ou,
no máximo, no dia seguinte,
estava o troço no chão de
novo, sempre na mesma posição.
Cogitou-se,
em reunião com a diretoria, instalar
uma câmera oculta no toalete, mas
o pessoal da empresa de vigilância
já foi avisando que cobraria 50%
a mais para fazer esse tipo de monitoramento.
Então, a solução imediata foi redobrar
a atenção no entra e sai de frequentadores
com excesso de água no joelho, se
é que me entendem.
Histórias
acerca do desodorizador higiênico
eu conhecia muitas, como a da Daniela,
uma amiga de Porto Alegre, cujo
vaso cheirava a urina diuturnamente,
sem que ela conseguisse imaginar
o motivo, pois vivia colocando pedras
e bastões sanitários na borda da
cerâmica. Até o momento em que entrou
de supetão no banheiro e flagrou
o namorado mijando, mirando na cestinha
e comemorando, entusiasmado e sacolejante,
a cada acerto no fragrante alvo.
Mas igual
ao caso da empresa eu nunca ouvira
falar. No entanto, o tal segredo,
que se estendia por quase três meses,
foi desvendado meio sem querer,
no dia em que fui à cozinha buscar
um copo d'água. Dona Gertrudes,
uma senhora alemã, que havia sido
governanta de Salvador Allende antes
de vir para o Brasil, esquecera
sua garrafa térmica particular aberta
sobre a pia. O aroma era inconfundível
e não deixava dúvidas: tratava-se
do famoso "café dos andes", preparado
com 50ml de leite condensado, 100ml
de creme de leite, 200ml café expresso,
50ml de vinho do porto e 20ml de
conhaque, no qual os ingredientes
devem ser batidos no liquidificador,
menos o conhaque, que vai por último,
por cima, flambado diretamente na
taça ou caneca. Anotaram?
Eis o que
eu queria revelar: A velha
faxineira, após o desjejum reforçado,
retirava o acessório com o refil
todas as manhãs para limpar a privada
e esquecia de recolocá-lo no lugar.
Mais tarde, novamente sóbria, parava
na porta do setor, colocava as duas
mãos na cintura e esbraveja com
seu carregado sotaque germânico:
Eu quererrr saberrr quem foi
o desgraçada que tirou o porra da
cestinha do badezimmer outrrra vez!
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