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Vou confessar
a vocês: sempre gostei de escrever,
desde pequeno. Os
meninos da rua em que eu morava
iam jogar bola, soltar pipa ou andar
de bicicleta e eu ficava em casa,
escrevendo, tocando violão ou lendo.
Escrevia letras de música, poemas,
pequenos contos e até um diário.
Mamãe, quando
lia alguma redação nos meus cadernos
de escola, dizia afetuosamente:
"Tu levas jeito pra cacete, meu
filho". A primeira namorada, que
às vezes roubava meu diário
para ver se eu não estava apaixonado
por outra, também comentava: "Você
leva jeito pra cacete, cachorrinho-do-meu-coração".
E as professoras de Língua Portuguesa,
apesar de me considerarem um tanto
disperso, elogiavam com frequência:
"O senhor leva jeito para cacete,
pode acreditar".
Até que me
tornei um cacete, pois parecia ser
essa a minha vocação.
Claro que
joguei bola, soltei pipa e andei
de bicicleta. Namorei outras meninas,
além da primeira namorada. Mas somente
na oitava série ganhei a primeira
nota dez em redação. No ano seguinte,
o aluno mais desajustado da escola,
o Miguel, escreveu e editou um livro.
Lembro que, na época, apenas pensei
com os meus botões: "Porra!".
Imediatamente
comecei a desenvolver uma saga que
levou todo o segundo grau para chegar
ao fim. Era uma história (sobre
um piá de dez anos que descobria
que tinha um tumor no cérebro e
precisava dar um jeito de comer
a empregada para não morrer virgem)
que não se aplicava nem a crianças
nem a adolescentes, portanto, impublicável.
Desiludido
com a primeira tentativa fracassada,
deixei a literatura de lado e comprei
uma guitarra. Foi um período de
vacas gordas. E também de vacas
magras, altas, baixas, loiras, morenas,
mulatas, novas, velhas e japonesas.
Sobre dinheiro não posso dizer nada,
mas é certo que músicos ganham mais
mulheres do que escritores.
Já na faculdade
de Letras, foi a adorável professora
Terezinha Junkes que voltou a repetir
uma frase que me era familiar: "Você
leva jeito, rapazinho". "Pra cacete?",
eu perguntei. "Não, não, acho que
você dá pra cronista". Dessa vez
não me deixei influenciar. Nunca
dei nem para cronista nem para contista
nem para poeta, podem fazer o teste
da farinha de trigo.
Então, o
tempo passou. Muito mais tempo do
que eu gostaria. Li bastante e escrevi
pouco, até encontrar nesta coluna
do Guia Floripa um novo ânimo pra
exercitar esse meu dom: o dom de
ser do contra e julgar as pessoas
bem melhor por escrito do que de
viva-voz. Creio
que é a derradeira chance, agora
escrevendo profissionalmente há
mais de um ano (para mais gente,
fora parentes e amigos), de deixar
de ser o cacete que sempre fui e
de preservar a integridade das minhas
partes peripopéticas, onde o sol
não brilha, e que só a terra há
de comer.
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