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  17.02.2009

 
Autobiografia Autorizada


Vou confessar a vocês: sempre gostei de escrever, desde pequeno. Os meninos da rua em que eu morava iam jogar bola, soltar pipa ou andar de bicicleta e eu ficava em casa, escrevendo, tocando violão ou lendo. Escrevia letras de música, poemas, pequenos contos e até um diário.

Mamãe, quando lia alguma redação nos meus cadernos de escola, dizia afetuosamente: "Tu levas jeito pra cacete, meu filho". A primeira namorada, que às vezes roubava meu diário para ver se eu não estava apaixonado por outra, também comentava: "Você leva jeito pra cacete, cachorrinho-do-meu-coração". E as professoras de Língua Portuguesa, apesar de me considerarem um tanto disperso, elogiavam com frequência: "O senhor leva jeito para cacete, pode acreditar".

Até que me tornei um cacete, pois parecia ser essa a minha vocação.

Claro que joguei bola, soltei pipa e andei de bicicleta. Namorei outras meninas, além da primeira namorada. Mas somente na oitava série ganhei a primeira nota dez em redação. No ano seguinte, o aluno mais desajustado da escola, o Miguel, escreveu e editou um livro. Lembro que, na época, apenas pensei com os meus botões: "Porra!".

Imediatamente comecei a desenvolver uma saga que levou todo o segundo grau para chegar ao fim. Era uma história (sobre um piá de dez anos que descobria que tinha um tumor no cérebro e precisava dar um jeito de comer a empregada para não morrer virgem) que não se aplicava nem a crianças nem a adolescentes, portanto, impublicável.

Desiludido com a primeira tentativa fracassada, deixei a literatura de lado e comprei uma guitarra. Foi um período de vacas gordas. E também de vacas magras, altas, baixas, loiras, morenas, mulatas, novas, velhas e japonesas. Sobre dinheiro não posso dizer nada, mas é certo que músicos ganham mais mulheres do que escritores.

Já na faculdade de Letras, foi a adorável professora Terezinha Junkes que voltou a repetir uma frase que me era familiar: "Você leva jeito, rapazinho". "Pra cacete?", eu perguntei. "Não, não, acho que você dá pra cronista". Dessa vez não me deixei influenciar. Nunca dei nem para cronista nem para contista nem para poeta, podem fazer o teste da farinha de trigo.

Então, o tempo passou. Muito mais tempo do que eu gostaria. Li bastante e escrevi pouco, até encontrar nesta coluna do Guia Floripa um novo ânimo pra exercitar esse meu dom: o dom de ser do contra e julgar as pessoas bem melhor por escrito do que de viva-voz. Creio que é a derradeira chance, agora escrevendo profissionalmente há mais de um ano (para mais gente, fora parentes e amigos), de deixar de ser o cacete que sempre fui e de preservar a integridade das minhas partes peripopéticas, onde o sol não brilha, e que só a terra há de comer.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e dublê de cronista amador.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e doações pelo e-mail: dogman@uol.com.br

Colunas 2009

10.02.09 / O Crime do Fluss Azul Ativo
03.02.09 / Coisa de Casal
27.01.09 / Solange (So Lonely)
20.01.09 / Autoajuda Antiofídica
13.01.09 / Pergunte ao Dogman: Novo Acordo Ortográfico
06.01.09 / Faculdades Mentais


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