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  24.02.2009

 
O Bloco do Eu Sozinho


Eu sei, eu sei que devia escrever sobre carnaval, afinal, minha coluna da semana acabou caindo bem no feriado e tal. Só que é muito difícil falar de uma data com a qual não tenho nenhuma identificação nem o mínimo respeito, a não ser pelos dias de folga. Então pensei em outros temas, mais atemporais, que talvez pudessem interessar a quem, como eu, é ruim da cabeça e doente do pé, simultaneamente.

Como a história da dona Lorenza, por exemplo, uma catadora de papel de Penápolis, interior de São Paulo, que achou quarenta mil reais na lixeira de um supermercado e devolveu o dinheiro ao dono. A boa senhora, em vez de estar feliz da vida planejando a melhor maneira de gastar a vultosa quantia, visto que achado não é roubado, agora participa de programas de televisão. Virou modelo de honestidade, praticamente uma atração circense, quando, na verdade (apesar de ter perdido a chance de embolsar uma grana que jamais conseguiria juntar nesta encarnação), apenas cumpriu com sua obrigação de ser humano decente.

Pensei também em aconselhar as jovens foliãs acerca dos romances casuais e de seus possíveis desdobramentos nesta época do ano, depois que uma balzaquiana das minhas relações anunciou que arranjaria, de qualquer maneira, um namorado durante o carnaval. Eu não quis desanimar a moça antes do início de sua busca desesperada, porém, sempre me pareceu meio óbvio que, se já não existe o homem ideal nas datas restantes, no reinado de Momo a possibilidade torna-se absolutamente nula para fins matrimoniais.

Outra das minhas opções seria comentar o estapafúrdio comercial do Glade Autoesporte, aquele em que as mulheres provocam acidentes com seus próprios automóveis na beira de uma rodovia somente para pegar carona no carro que vem logo atrás, com um cara bonitão e cheirinho agradável. Quanto à fragrância do produto, não posso afirmar nada, pois ainda não inventaram televisores com fedor, digo, com cheiro; mas eu queria mesmo entender é de onde surgiram essas raparigas mediúnicas, capazes de prever que o próximo carro a passar na estrada está equipado com o aparelhinho. Deve ser o efeito Axe, claro.

Enquanto eu pensava em coisas legais para escrever, parou bem debaixo da minha sacada um Del Rey com placa de outro Estado. Saltaram cinco marmanjos vestidos de mulher, cada um com a sua latinha de cerveja na mão. Ligaram a música (sic) sertaneja no último volume e resolveram tentar seduzir outros motoristas com suas pernas cabeludas, dentro de minissaias justíssimas, jogando bebida nos transeuntes e emitindo gritinhos extremamente suspeitos, coisa de quem ensaia com bastante antecedência em frente ao espelho do albergue.

A certa altura, minha inspiração havia ido para o beleléu. No entanto, observando mais atentamente o afeminado quinteto, antes de jogar-lhes ovos (como costumo fazer em todos os carnavais) por estarem fora de contexto, longe de qualquer baile, bloco, bar ou barracão, e mesmo dando o devido desconto aos efeitos do álcool, cheguei a uma lamentável conclusão: essa juventude de hoje tem algum retardamento.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e desfila na Unidos do Ortobom.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e fantasias pelo e-mail: dogman@uol.com.br

Colunas 2009

17.02.09 / Autobiografia Autorizada
10.02.09 / O Crime do Fluss Azul Ativo
03.02.09 / Coisas de Casal
27.01.09 / Solange (So Lonely)
20.01.09 / Autoajuda Antiofídica
13.01.09 / Pergunte ao Dogman: Novo Acordo Ortográfico
06.01.09 / Faculdades Mentais


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