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Eu sei, eu
sei que devia escrever sobre carnaval,
afinal, minha coluna da semana acabou
caindo bem no feriado e tal. Só
que é muito difícil falar de uma
data com a qual não tenho nenhuma
identificação nem o mínimo respeito,
a não ser pelos dias de folga. Então
pensei em outros temas, mais atemporais,
que talvez pudessem interessar a
quem, como eu, é ruim da cabeça
e doente do pé, simultaneamente.
Como a história
da dona Lorenza, por exemplo, uma
catadora de papel de Penápolis,
interior de São Paulo, que achou
quarenta mil reais na lixeira de
um supermercado e devolveu o dinheiro
ao dono. A boa senhora, em vez de
estar feliz da vida planejando a
melhor maneira de gastar a vultosa
quantia, visto que achado não é
roubado, agora participa de programas
de televisão. Virou modelo de honestidade,
praticamente uma atração circense,
quando, na verdade (apesar de ter
perdido a chance de embolsar uma
grana que jamais conseguiria juntar
nesta encarnação), apenas cumpriu
com sua obrigação de ser humano
decente.
Pensei também
em aconselhar as jovens foliãs acerca
dos romances casuais e de seus possíveis
desdobramentos nesta época do ano,
depois que uma balzaquiana das minhas
relações anunciou que arranjaria,
de qualquer maneira, um namorado
durante o carnaval. Eu não quis
desanimar a moça antes do início
de sua busca desesperada, porém,
sempre me pareceu meio óbvio que,
se já não existe o homem ideal nas
datas restantes, no reinado de Momo
a possibilidade torna-se absolutamente
nula para fins matrimoniais.
Outra das
minhas opções seria comentar o estapafúrdio
comercial do Glade Autoesporte,
aquele em que as mulheres provocam
acidentes com seus próprios automóveis
na beira de uma rodovia somente
para pegar carona no carro que vem
logo atrás, com um cara bonitão
e cheirinho agradável. Quanto à
fragrância do produto, não posso
afirmar nada, pois ainda não inventaram
televisores com fedor, digo, com
cheiro; mas eu queria mesmo entender
é de onde surgiram essas raparigas
mediúnicas, capazes de prever que
o próximo carro a passar na estrada
está equipado com o aparelhinho.
Deve ser o efeito Axe, claro.
Enquanto
eu pensava em coisas legais para
escrever, parou bem debaixo da minha
sacada um Del Rey com placa
de outro Estado. Saltaram cinco
marmanjos vestidos de mulher, cada
um com a sua latinha de cerveja
na mão. Ligaram a música (sic)
sertaneja no último volume e resolveram
tentar seduzir outros motoristas
com suas pernas cabeludas, dentro
de minissaias justíssimas, jogando
bebida nos transeuntes e emitindo
gritinhos extremamente suspeitos,
coisa de quem ensaia com bastante
antecedência em frente ao espelho
do albergue.
A certa altura,
minha inspiração havia ido para
o beleléu. No entanto, observando
mais atentamente o afeminado quinteto,
antes de jogar-lhes ovos (como costumo
fazer em todos os carnavais) por
estarem fora de contexto, longe
de qualquer baile, bloco, bar ou
barracão, e mesmo dando o
devido desconto aos efeitos do álcool,
cheguei a uma lamentável conclusão:
essa juventude de hoje tem algum
retardamento.
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