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  10.03.2009

 
Tão Longe, Tão Perto


Muita gente já me disse que a minha coluna é "delicada" demais. Acham, em sua na maioria, que eu devia abordar assuntos mais condizentes com a minha fama de grosseirão, machista e conquistador barato, como carros e futebol, por exemplo. Foi aí que (ouvindo os amigos, lendo os e-mails dos leitores, etc.) botei a mão na consciência, parei para pensar um pouquinho, e constatei que é isso mesmo: as minhas atitudes não combinam com a minha personalidade. Eu não coço o saco em público, não viro para olhar bunda de mulher na rua, não bebo, não dirijo em alta velocidade, não uso uniforme de agremiação esportiva e não faço alarde das minhas peripécias sexuais nem diante do arcebispo de Olinda e Recife. Como proceder, então, para me transformar num homem de verdade? Talvez tentando escrever um parágrafo sobre carros e futebol, como este a seguir, inspirado numa quarta-feira qualquer deste verão.

Havia uma Lua cheia gigante no céu agora há pouco. Eu voltava do trabalho e ela estava bem em cima do meu CARRO, parecia um balão ou uma lanterna chinesa. Linda, linda! No entanto, quando fiz a curva para sair da rodovia principal e pegar o caminho de casa, ela se afastou como num passe de mágica. Ficou pequenininha no firmamento em questão de segundos. Não sei se foi ilusão de ótica, mas me impressionou o fato de um astro com quase três mil e quinhentos quilômetros de diâmetro estar tão perto a ponto de ocupar metade do espaço celeste e, de repente, reaparecer tão longe, menor do que a luz dos postes à beira da estrada. É claro que existem outras coisas que vêm e vão na vida da gente: um grande amor, que esteve ao alcance das mãos e hoje nem lembra mais direito da nossa cara; a medalha de ouro nos jogos da escola, pouco antes do tropeção que nos tirou do pódio; a vaga em medicina, que foi nossa até o terceiro dia de vestibular e escapou porque "não sacávamos nada de química"; ou os amigos da adolescência, que até pouco tempo faziam campeonato de arroto e agora sustentam suas famílias com uma dedicação invejavelmente adulta. Só que com a Lua parece que as idas e vindas ficam mais divertidas. Tentei aumentar e diminuir a velocidade, dirigir em ziguezague e de marcha ré, mas não houve jeito de o luar se aproximar de mim novamente. Pensei na Laika, aquela cadelinha que foi mandada para a exosfera no final dos anos cinquenta e nunca mais voltou. Ela sim, deve ter visto tudo de perto! Antes de entrar em casa ainda dei mais uma olhadinha ao céu, dessa vez para fazer uma prece a São Jorge. É que já estava na hora do FUTEBOL e o meu time precisava da vitória. Aos quarenta minutos do segundo tempo, quando saiu o gol do Timão, eu não contive as lágrimas. Chorei que nem criança.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e vibra com o Fenômeno.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e doações também em seu blog: http://dogman.zip.net

Colunas 2009

03.03.09 / Trinta Minutos
24.02.09 / O Bloco do Eu Sozinho
17.02.09 / Autobiografia Autorizada
10.02.09 / O Crime do Fluss Azul Ativo
03.02.09 / Coisas de Casal
27.01.09 / Solange (So Lonely)
20.01.09 / Autoajuda Antiofídica
13.01.09 / Pergunte ao Dogman: Novo Acordo Ortográfico
06.01.09 / Faculdades Mentais


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