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Muita gente
já me disse que a minha coluna é
"delicada" demais. Acham, em sua
na maioria, que eu devia abordar
assuntos mais condizentes com a
minha fama de grosseirão, machista
e conquistador barato, como carros
e futebol, por exemplo. Foi aí que
(ouvindo os amigos, lendo os e-mails
dos leitores, etc.) botei a mão
na consciência, parei para pensar
um pouquinho, e constatei que é
isso mesmo: as minhas atitudes não
combinam com a minha personalidade.
Eu não coço o saco em público, não
viro para olhar bunda de mulher
na rua, não bebo, não dirijo em
alta velocidade, não uso uniforme
de agremiação esportiva
e não faço alarde das minhas peripécias
sexuais nem diante do arcebispo
de Olinda e Recife. Como proceder,
então, para me transformar num homem
de verdade? Talvez tentando escrever
um parágrafo sobre carros e futebol,
como este a seguir, inspirado numa
quarta-feira qualquer deste verão.
Havia
uma Lua cheia gigante no céu agora
há pouco. Eu voltava do trabalho
e ela estava bem em cima do meu
CARRO, parecia um balão ou uma lanterna
chinesa. Linda, linda! No entanto,
quando fiz a curva para sair da
rodovia principal e pegar o caminho
de casa, ela se afastou como num
passe de mágica. Ficou pequenininha
no firmamento em questão de segundos.
Não sei se foi ilusão de ótica,
mas me impressionou o fato de um
astro com quase três mil e quinhentos
quilômetros de diâmetro estar tão
perto a ponto de ocupar metade do
espaço celeste e, de repente, reaparecer
tão longe, menor do que a luz dos
postes à beira da estrada. É claro
que existem outras coisas que vêm
e vão na vida da gente: um grande
amor, que esteve ao alcance das
mãos e hoje nem lembra mais direito
da nossa cara; a medalha de ouro
nos jogos da escola, pouco antes
do tropeção que nos tirou do pódio;
a vaga em medicina, que foi nossa
até o terceiro dia de vestibular
e escapou porque "não sacávamos
nada de química"; ou os amigos da
adolescência, que até pouco tempo
faziam campeonato de arroto e agora
sustentam suas famílias com uma
dedicação invejavelmente adulta.
Só que com a Lua parece que as idas
e vindas ficam mais divertidas.
Tentei aumentar e diminuir a velocidade,
dirigir em ziguezague e de marcha
ré, mas não houve jeito de o luar
se aproximar de mim novamente. Pensei
na Laika, aquela cadelinha que foi
mandada para a exosfera no final
dos anos cinquenta e nunca mais
voltou. Ela sim, deve ter visto
tudo de perto! Antes de entrar em
casa ainda dei mais uma olhadinha
ao céu, dessa vez para fazer uma
prece a São Jorge. É que já estava
na hora do FUTEBOL e o meu time
precisava da vitória. Aos quarenta
minutos do segundo tempo, quando
saiu o gol do Timão, eu não contive
as lágrimas. Chorei que nem criança.
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