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Um conhecido
meu lá da empresa, cujo nome será
preservado por motivos óbvios (como
veremos mais adiante), ao cruzar
a Praça XV de Novembro um dia desses
depois do almoço, foi abordado por
uma cigana. Com carregado sotaque
paraguaio, exalando discreto bafo
de aguardente, a mulher pediu a
ele uma nota de dez reais, justificando
que a sorte se apresenta mais claramente
em papel-moeda, e que ela não ficaria
com o dinheiro, apenas o usaria
como instrumento de trabalho.
O infeliz
profissional do mercado publicitário,
atualmente em crise carreirística
e amorosa, abriu a carteira e ofereceu
esperançoso a última "arara"
que lhe restava para o sacrifício.
A velha zíngara puxou o ar e, num
frêmito expectorante, rosnando alto,
cuspiu na nota novinha, recentemente
saída do caixa eletrônico. Com a
ponta dos dedos, remexeu o catarro
disforme e volumoso, até desenhar
um mapa do Brasil ou uma rosa-dos-ventos,
o que não vem propriamente ao caso.

Durante cinco
longos minutos a enrugada cigana
falou sobre o passado, o presente
e o futuro desse meu conhecido,
sem que ele prestasse a mínima atenção
a nenhuma palavra, devido ao embrulho
no estômago, seguido de leve tontura
e uma sensação aguda de arrependimento
em forma de pontadas nas têmporas.
Por um breve instante, viu o palácio
rosado ficar azul, mas resistiu
o quanto pôde, pois não havia
recebido o salário do mês,
então precisava resgatar
os dez reais.
Chegado o
fim da consulta, a escatológica
senhora devolveu o dinheiro como
havia prometido. Corajosamente,
ele segurou a nota (agora úmida,
pegajosa e fedorenta) por uma das
pontas e seguiu atordoado pelo interior
da praça, que aparentemente girava.
Ao longe, cambaleante, pouco antes
de vomitar no canteiro de marias-sem-vergonha,
ainda conseguiu distinguir a voz
esganiçada da matusalênica vidente,
que lhe dizia impropérios e rogava
as piores pragas num idioma muitíssimo
suspeito.
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