|
O Oscarzinho
não saía lá de casa. Como o nosso
apartamento ficava a caminho da
escola e ele não tinha irmãos para
brincar, dava sempre um jeito de
chegar mais cedo, só para matar
um tempinho antes de o sinal bater.
E mesmo depois das aulas, nos dias
em que havia Educação Física ou
reunião do grêmio estudantil, aproveitava
para filar um almoço e esticar a
diversão até o fim da tarde. Bons
tempos aqueles da 7ª série
do Colégio Catarinense, na primeira
metade dos anos oitenta.
Mamãe vivia
de cabelos em pé quando o Oscarzinho
estava por perto. Sem nenhuma habilidade
para o futebol, por exemplo, toda
vez que chutava uma bola nas nossas
disputas de "gol a gol" no corredor,
era batata que ele acertaria uma
estatueta, um quadro, um porta-retrato
ou um abajur. Por isso tínhamos
sempre Superbonder à mão,
para socorrê-lo nos momentos de
tragédia anunciada.
Na cozinha
também era um desastre. Até para
preparar um simples lanche antes
de estudar para alguma prova ele
arranjava confusão. Nós nunca fomos
capazes de explicar à minha mãe
(a quem chamava carinhosamente de
"tia") como o Oscarzinho conseguiu
derrubar uma lata de Nescau dentro
da jarra de suco de laranja. A cor
ficou horrorosa, mas o gosto agradou
aos mais exigentes paladares da
nossa turma.
Daquela época,
dentre todas as histórias que envolviam
o Oscarzinho, a melhor continua
sendo a do fornecedor de gás. É
que não havia gás central no condomínio,
então, uma vez por mês, o caminhão
da companhia distribuidora estacionava
na calçada e oferecia um botijão
recarregado aos moradores interessados.
Certa vez
a encomenda estava demorando a chegar,
pois já fazia quinze minutos que
o zelador avisara pelo interfone
que o entregador estava subindo.
Mamãe pediu ao Oscarzinho para abrir
a porta e verificar o porquê do
atraso. A poucos metros do nosso
apartamento, perto do elevador,
o moço uniformizado, suado e ofegante,
largara o botijão e sentara-se sobre
ele para descansar um pouco. O
meu amigo não teve dúvidas, depois
de olhar lá fora, botou de novo
a cabeça para dentro e gritou na
direção da cozinha:
Peraí,
tia... o homem ainda tá enchendo
o bujão!
|