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Conforme-se.
Tudo aquilo que você deixou ou vai
deixar de fazer antes de completar
quarenta anos de idade não poderá
mais ser feito da mesma forma nem
com a mesma dignidade nem impunemente
durante a segunda metade da sua
vida. E não sou eu que afirmo isso,
apesar de concordar plenamente,
mesmo ainda não tendo completado
as minhas quatro décadas de existência.
Nos últimos dois ou três meses colhi
depoimentos e conversei com homens
e mulheres nascidos entre o final
da década de sessenta e o início
da década de setenta para saber
o que pensam, como vivem e o que
esperam do futuro. Como eu já imaginava,
o otimismo, assim como a cartilagem
dos joelhos e a visão de longa distância,
também acaba se desgastando com
o tempo.
Depois dos
quarenta só fazemos exercícios físicos
por recomendação médica ou porque
estamos novamente solteiros, com
os filhos crescidos, e precisamos
competir de alguma forma contra
concorrentes mais jovens. Os homens
compram carros cada vez maiores
para compensar a falta de potência
sexual, enquanto as mulheres implantam
silicone em todas as partes do corpo
para conseguir a atenção que ninguém
mais lhes dá espontaneamente. As
pessoas não comem isso, não comem
aquilo, fazem dieta com a desculpa
de que precisam levar uma vida saudável,
quando, na verdade, não conseguem
dormir em paz por causa da azia,
do refluxo, da apnéia e dos suores
noturnos. Nada que dois ou três
travesseiros empilhados não resolvam.
Depois dos
quarenta precisamos de amigos mais
velhos, pois os mais novos não querem
ser vistos conosco. Os que se arriscam
a procriar precisam estar preparados
para serem chamados de avós e não
de pais. Cabelo comprido, nem pensar;
All Star, de jeito nenhum.
O cérebro não absorve novas informações,
apenas utiliza as pré-existentes.
E se o seu nível intelectual não
era lá essas coisas no início da
vida adulta, não é a idade que vai
corrigir esse gravíssimo
defeito. No trabalho, começamos
a contagem regressiva para a aposentadoria.
Em caso de demissão, descobrimos
que quarentões e quarentonas não
têm a mínima utilidade para
a sociedade. E o que é pior: em
poucas décadas não passarão
de um fardo para a previdência social.
Depois dos
quarenta as mulheres não abrem mais
as pernas sem sentir cãibra, os
homens não conseguem deixar de pigarrear
ou peidar fora de hora e os gays
saem do armário compulsoriamente.
A pele perde elasticidade, o bom
humor torna-se falso, os cabelos
brancos fogem do controle e o olhar,
outrora límpido e brilhante, agora
é opaco e avermelhado. Os dias são
cada vez mais longos, as noites
cada vez mais curtas, as conversas
cada vez mais entediantes, os sons
cada vez mais altos, os eventos
cada vez mais intermináveis. Fazemos
de conta que nos importamos com
alguém ou com alguma coisa, relembramos
histórias do passado, lamentamos
não ter escolhido outro marido ou
outra esposa enquanto éramos corajosos.
Depois dos
quarenta adquirimos uma arrogância
e uma prepotência que jamais imaginamos
possuir. Vivemos para os outros
e não para nós mesmos. Nos arrependemos
de quase tudo e tentamos acreditar
que não erramos nunca. Vamos à praia
e ao clube, velejamos, bebemos champanhe,
fumamos o charuto mais fedorento
que existe, pagamos pelo jantar
no restaurante mais caro da cidade,
vestimos a grife mais medonha da
história da moda em nome das aparências
que a meia-idade exige. Sabemos
quanto custa uma garrafa de vinho,
mas não fazemos ideia do quanto
nossos filhos pré-adolescentes andam
gastando com preservativos e anticoncepcionais.
Experimente vasculhar a mochila
da escola qualquer hora dessas sem
avisar.
E conforme-se.
A vida é injusta e cruel com quem
já viveu metade do tempo
para o qual veio ao mundo. Cem por
cento de nós está aqui apenas para
fazer volume no planeta e interfonar
para o síndico quando a música estiver
muito alta no apartamento do vizinho.
As fantasias que não foram realizadas
até hoje, daqui para frente, só
se realizarão mediante pagamento
adiantado. Os lugares que sempre
sonhamos conhecer não terão mais
o mesmo encanto. As crianças, em
algum momento, ficarão constrangidas
com nossas roupas e com nosso vocabulário.
Mais cedo ou mais tarde, deixaremos
de ir ao cinema para assistir a
um filme dublado na televisão. É
que depois dos quarenta não existe
absolutamente nada que valha a pena,
somente a morte.
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