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  31.03.2009

 
A vida acaba aos quarenta


Conforme-se. Tudo aquilo que você deixou ou vai deixar de fazer antes de completar quarenta anos de idade não poderá mais ser feito da mesma forma nem com a mesma dignidade nem impunemente durante a segunda metade da sua vida. E não sou eu que afirmo isso, apesar de concordar plenamente, mesmo ainda não tendo completado as minhas quatro décadas de existência. Nos últimos dois ou três meses colhi depoimentos e conversei com homens e mulheres nascidos entre o final da década de sessenta e o início da década de setenta para saber o que pensam, como vivem e o que esperam do futuro. Como eu já imaginava, o otimismo, assim como a cartilagem dos joelhos e a visão de longa distância, também acaba se desgastando com o tempo.

Depois dos quarenta só fazemos exercícios físicos por recomendação médica ou porque estamos novamente solteiros, com os filhos crescidos, e precisamos competir de alguma forma contra concorrentes mais jovens. Os homens compram carros cada vez maiores para compensar a falta de potência sexual, enquanto as mulheres implantam silicone em todas as partes do corpo para conseguir a atenção que ninguém mais lhes dá espontaneamente. As pessoas não comem isso, não comem aquilo, fazem dieta com a desculpa de que precisam levar uma vida saudável, quando, na verdade, não conseguem dormir em paz por causa da azia, do refluxo, da apnéia e dos suores noturnos. Nada que dois ou três travesseiros empilhados não resolvam.

Depois dos quarenta precisamos de amigos mais velhos, pois os mais novos não querem ser vistos conosco. Os que se arriscam a procriar precisam estar preparados para serem chamados de avós e não de pais. Cabelo comprido, nem pensar; All Star, de jeito nenhum. O cérebro não absorve novas informações, apenas utiliza as pré-existentes. E se o seu nível intelectual não era lá essas coisas no início da vida adulta, não é a idade que vai corrigir esse gravíssimo defeito. No trabalho, começamos a contagem regressiva para a aposentadoria. Em caso de demissão, descobrimos que quarentões e quarentonas não têm a mínima utilidade para a sociedade. E o que é pior: em poucas décadas não passarão de um fardo para a previdência social.

Depois dos quarenta as mulheres não abrem mais as pernas sem sentir cãibra, os homens não conseguem deixar de pigarrear ou peidar fora de hora e os gays saem do armário compulsoriamente. A pele perde elasticidade, o bom humor torna-se falso, os cabelos brancos fogem do controle e o olhar, outrora límpido e brilhante, agora é opaco e avermelhado. Os dias são cada vez mais longos, as noites cada vez mais curtas, as conversas cada vez mais entediantes, os sons cada vez mais altos, os eventos cada vez mais intermináveis. Fazemos de conta que nos importamos com alguém ou com alguma coisa, relembramos histórias do passado, lamentamos não ter escolhido outro marido ou outra esposa enquanto éramos corajosos.

Depois dos quarenta adquirimos uma arrogância e uma prepotência que jamais imaginamos possuir. Vivemos para os outros e não para nós mesmos. Nos arrependemos de quase tudo e tentamos acreditar que não erramos nunca. Vamos à praia e ao clube, velejamos, bebemos champanhe, fumamos o charuto mais fedorento que existe, pagamos pelo jantar no restaurante mais caro da cidade, vestimos a grife mais medonha da história da moda em nome das aparências que a meia-idade exige. Sabemos quanto custa uma garrafa de vinho, mas não fazemos ideia do quanto nossos filhos pré-adolescentes andam gastando com preservativos e anticoncepcionais. Experimente vasculhar a mochila da escola qualquer hora dessas sem avisar.

E conforme-se. A vida é injusta e cruel com quem já viveu metade do tempo para o qual veio ao mundo. Cem por cento de nós está aqui apenas para fazer volume no planeta e interfonar para o síndico quando a música estiver muito alta no apartamento do vizinho. As fantasias que não foram realizadas até hoje, daqui para frente, só se realizarão mediante pagamento adiantado. Os lugares que sempre sonhamos conhecer não terão mais o mesmo encanto. As crianças, em algum momento, ficarão constrangidas com nossas roupas e com nosso vocabulário. Mais cedo ou mais tarde, deixaremos de ir ao cinema para assistir a um filme dublado na televisão. É que depois dos quarenta não existe absolutamente nada que valha a pena, somente a morte.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e dono de um otimismo invejável.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas e sugestões também em seu blog: http://dogman.zip.net

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