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  21.04.2009

 
Revolução dos Cravos


Eu sei, eu sei, pelo título (e por já me conhecerem como conhecem) devem ter imaginado que eu escreveria algo sobre problemas de pele, princípios de quiproquó entre acnes e verrugas ou algum movimento reivindicatório dos pêlos encravados, não é mesmo? Realmente não achei a ideia de todo ruim, mas... quem sabe numa próxima oportunidade.

Daqui a alguns dias faz aniversário o mais fascinante movimento revolucionário do qual se tem notícia na história recente da humanidade. Foi em 25 de abril de 1974 que a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura de Salazar, instalada há 42 anos em Portugal. Militares intermediários, capitães em sua maioria, apoiados irrestritamente pelo povo, marcharam sobre Lisboa e outras cidades com suas tropas, a fim de retomar o poder e restabelecer a dignidade da nação lusitana, empobrecida e esquecida pelo mundo com o passar do tempo.

Uma canção de José Afonso, chamada Grândola, Vila Morena (gravada por Nara Leão e pelo grupo paulistano 365, entre outros), executada nas rádios locais, foi a "senha" para o início das ofensivas. A letra dizia: Em cada esquina um amigo, em cada rosto a igualdade; o povo é quem mais ordena, dentro de ti, ó cidade. Do Brasil, em pleno regime militar, Chico Buarque compôs a canção Tanto Mar (Sei que estás em festa, pá... fico contente; e enquanto estou ausente, guarda um cravo para mim), dedicada aos patrícios lusitanos. Coincidentemente, em 1984, também num 25 de abril, aconteceria a votação da emenda Dante de Oliveira pelas eleições diretas no nosso País, rejeitada pelo Congresso Nacional. Era o início da virada brasileira, ainda que com uma década de atraso.

O filme Capitães de Abril, dirigido pela atriz, cantora e cineasta lisboeta Maria de Medeiros, é um dos que retratam fielmente os acontecimentos da data na qual, esta semana, nossos colonizadores comemoram o feriado do Dia da Liberdade. Além das forças armadas, movimentos estudantis e grandes greves dos trabalhadores industriais, dos transportes, dos empregados, dos pescadores, tiveram importante contribuição no processo revolucionário que vinha se desenvolvendo e que culminou com a Revolução dos Cravos, fato responsável pela recuperação das liberdades de opinião, de expressão e de imprensa dos portugueses.

Em poucas horas, os governistas foram rendidos sem que nenhum tiro fosse disparado, e a população, de alma lavada, saiu às ruas para comemorar. Nada premeditado, as vendedoras de flores da Praça do Rossio colocaram cravos nos canos dos fuzis dos militares revolucionários, daí o nome e o (meu) encantamento acerca do episódio. Há exatos 35 anos, excepcionalmente, a poesia venceu a guerra.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e ainda vai conhecer Lisboa.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e passagens aéreas pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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