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Eu sei, eu
sei, pelo título (e por já me conhecerem
como conhecem) devem ter imaginado
que eu escreveria algo sobre problemas
de pele, princípios de quiproquó
entre acnes e verrugas ou algum
movimento reivindicatório dos pêlos
encravados, não é mesmo? Realmente
não achei a ideia de todo ruim,
mas... quem sabe numa próxima oportunidade.
Daqui a alguns
dias faz aniversário o mais fascinante
movimento revolucionário do qual
se tem notícia na história recente
da humanidade. Foi em 25 de abril
de 1974 que a Revolução dos Cravos
derrubou a ditadura de Salazar,
instalada há 42 anos em Portugal.
Militares intermediários, capitães
em sua maioria, apoiados irrestritamente
pelo povo, marcharam sobre Lisboa
e outras cidades com suas tropas,
a fim de retomar o poder e restabelecer
a dignidade da nação lusitana, empobrecida
e esquecida pelo mundo com o passar
do tempo.
Uma canção
de José Afonso, chamada Grândola,
Vila Morena (gravada por Nara
Leão e pelo grupo paulistano 365,
entre outros), executada nas rádios
locais, foi a "senha" para o início
das ofensivas. A letra dizia: Em
cada esquina um amigo, em cada rosto
a igualdade; o povo é quem mais
ordena, dentro de ti, ó cidade.
Do Brasil, em pleno regime militar,
Chico Buarque compôs a canção Tanto
Mar (Sei que estás em festa,
pá... fico contente; e enquanto
estou ausente, guarda um cravo para
mim), dedicada aos patrícios
lusitanos. Coincidentemente, em
1984, também num 25 de abril, aconteceria
a votação da emenda
Dante de Oliveira pelas eleições
diretas no nosso País, rejeitada
pelo Congresso Nacional. Era o início
da virada brasileira, ainda que
com uma década de atraso.
O
filme Capitães de Abril,
dirigido pela atriz, cantora e cineasta
lisboeta Maria de Medeiros, é um
dos que retratam fielmente os acontecimentos
da data na qual, esta semana, nossos
colonizadores comemoram o feriado
do Dia da Liberdade. Além das forças
armadas, movimentos estudantis e
grandes greves dos trabalhadores
industriais, dos transportes, dos
empregados, dos pescadores, tiveram
importante contribuição no processo
revolucionário que vinha se desenvolvendo
e que culminou com a Revolução dos
Cravos, fato responsável
pela recuperação das
liberdades de opinião, de expressão
e de imprensa dos portugueses.
Em poucas
horas, os governistas foram rendidos
sem que nenhum tiro fosse disparado,
e a população, de alma lavada, saiu
às ruas para comemorar. Nada premeditado,
as vendedoras de flores da Praça
do Rossio colocaram cravos nos canos
dos fuzis dos militares revolucionários,
daí o nome e o (meu) encantamento
acerca do episódio. Há exatos 35
anos, excepcionalmente, a poesia
venceu a guerra.
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