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Estava divorciado
há mais de seis meses. A ex-esposa
voltara para a casa dos pais imediatamente
após a separação, mas ele não quis
devolver o apartamento alugado onde
haviam morado durante os últimos
dois anos. Todo dia 5, religiosamente,
por volta das oito horas da manhã,
ao invés de pagar o boleto em qualquer
agência bancária ou casa lotérica,
comparecia pessoalmente ao escritório
da pequena imobiliária e quitava
sua dívida de locação diretamente
com a corretora titular, que, por
sua vez (e em se tratando de uma
microempresa), também atendia o
telefone, redigia os contratos e
fazia as vistorias nos imóveis.
Não sabia
explicar sua atração por aquela
moça de meia-idade, miúda, branquinha,
muito tímida, que o recebia sorridente
(apesar da timidez) e lhe oferecia
café com sequilhos enquanto ele
preenchia o cheque com o valor do
aluguel somado à taxa do IPTU. Adorava
contemplar seus cabelos encaracolados
e não entendia o motivo de ela insistir
em alisá-los às sextas-feiras. Silenciosamente,
torcia para a data não cair no último
dia da semana, mas em voz alta,
mesmo nas ocasiões em que faltavam
os cachos, puxava alguma conversa
furada, somente para ouvi-la falar
com seu sotaque do interior, carregado
de erres.
Em dias de
tempestade, largava o guarda-chuva
molhado ao lado da cadeira e o esquecia
na sala, propositalmente, apenas
para ter a desculpa de voltar na
manhã seguinte. Não cansava de rever
seu andar graciosamente desajeitado,
indo e vindo do arquivo de achados
e perdidos. Ele agradecia encarando-a
firmemente, pois gostava inclusive
de vê-la baixar os olhos, sem corresponder,
sem enrubescer, sem lhe dar nenhuma
esperança. E aproveitava os poucos
segundos de cada despedida para
reparar na delicadeza de suas mãos,
permanentemente pousadas sobre a
mesa, desafortunadamente comprometidas.
Por causa
dos trinta e poucos encontros que
haviam tido até aquele instante
na pequena imobiliária, ele acostumara-se
com sua maneira de vestir e com
sua voz suave; aprendera um pouco
sobre macrobiótica, astrologia e
ioga (cujas aulas ela frequentava
diariamente); discutira direitos
e deveres dos inquilinos; preenchera
cheques errado; queimara a língua
com café quente; e planejara convidá-la
para sair assim que estivesse solteiro
novamente. Diversas vezes ensaiou
um convite, no lugar de simplesmente
pagar a dívida e partir como se
fosse uma pessoa jurídica, mas não
teve nem coragem de pedir seu telefone.
Agora estava
entrando no sétimo mês após o divórcio.
Ao contrário das outras visitas,
preferia que o próximo dia 5 não
chegasse nunca. Depois da separação,
mudara-se imediatamente para uma
casa distante quarenta quilômetros
do apartamento onde vivera com a
ex-esposa durante os últimos dois
anos. Não era propriamente um homem
bem-sucedido, ganhava o suficiente
para sobreviver e, eventualmente,
cometer alguma extravagância. Lamentava
ter de devolver as chaves definitivamente
à corretora por quem se apaixonara,
porém, omitiria dela o fato de que
não dava mais conta de pagar dois
aluguéis todo dia 5.
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