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  05.05.2009

 
Trêsminicrônicascoladas


Da Falta de Atenção nos Condomínios
Quase todos os dias, há mais de dois anos, pego o elevador com a vizinha do 801. Sempre na mesma hora, pouco antes das oito da manhã, eu seguro a porta e ela vem correndo, atrasada, lá do fim do corredor. Na primeira vez ela agradeceu, sorriu e disse um "bom-dia, vizinho" encantador. Na segunda vez, quando eu me preparava para retribuir o cumprimento da manhã anterior, ela entrou direto, sem dizer palavra, e fez a viagem até a portaria ajeitando o penteado no espelho. Virou rotina: num dia sorria e falava comigo; no outro me ignorava e seguia muda. Durante esses dois anos e pouco me acostumei com seus altos e baixos, com sua dupla personalidade, com suas alterações de humor. Quando nossos horários não coincidiam eu sentia falta de sua companhia no elevador, já não me importava se era dia de cordialidade ou de carranca. Hoje cedo, tal qual uma trama de Conan Doyle, o mistério da vizinha do 801 se esclareceu. Enquanto eu segurava a porta ela veio correndo, atrasada. Logo atrás, gritando "peraí que eu vou também", uma outra, igualzinha, veio rápido, mais atrasada ainda. As gêmeas entraram no elevador, ofegantes. Uma falou comigo; a outra não.

Da Superficialidade das Relações
Fazia algum tempo que não se encontravam. Ela tirou a blusa, ficou só de sutiã e saia. Depois descalçou os sapatos, tão lentamente que ele quase se ajoelhou para arrancá-los. Tinha um anel (de prata, com motivos tribais) no dedo médio do pé esquerdo.
– Que merda é essa?
– Um anel, nunca viu?
– Assim, no pé, só em papagaio.
– Eu não acredito que tu nunca viu, tá se usando direto.
– Põe uma meia minha... só o pé esquerdo, eu te empresto.
Ela o olhou fixamente, durante uns trinta segundos ou menos. Calçou de volta os sapatos, no mesmo ritmo com que os havia tirado. Vestiu a blusa, ajeitou o cabelo, puxou um cigarro da bolsa. Ele abriu a porta, de súbito, apontando o corredor com um movimento de cabeça.
– Fuma lá fora, me faz o favor.

Das Coisas Simples da Vida
O amor existe, sim, eu já senti uma vez. Foi numa auto-estrada, rumo ao norte. O posto de pedágio se aproximava e a mulher ao meu lado soltou o cinto de segurança para pegar as moedas na bolsa, no banco de trás. Antes baixou o volume da faixa 1 do meu CD do Keane. Concentradamente, juntou o valor exato indicado nas placas ao longo da rodovia e, quando parei o carro, me estendeu as mãos em concha, sorriu e disse: "quatro e setenta e cinco". Foi assim, adventício como nos filmes. Pela bagatela de quatro reais, setenta e cinco centavos e um sorriso eu deixei o amor entrar em mim. Ela recolocou o cinto, aumentou a música e seguimos viagem, mas eu nunca mais deixei ele escapar.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e um ás nos relacionamentos.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e declarações de amor pelo e-mail: dogman@uol.com.br

Colunas 2009

28.04.09 / Onde mora o amor?
21.04.09 / Revolução dos Cravos
14.04.09 / Tolices
07.04.09 / Utilidade Pública: Páscoa
31.03.09 / A vida acaba aos quarenta
24.03.09 / Do Abastecimento de Gás nos Condomínios
17.03.09 / Escarromancia
10.03.09 / Tão Longe, Tão Perto
03.03.09 / Trinta Minutos
24.02.09 / O Bloco do Eu Sozinho
17.02.09 / Autobiografia Autorizada
10.02.09 / O Crime do Fluss Azul Ativo
03.02.09 / Coisas de Casal
27.01.09 / Solange (So Lonely)
20.01.09 / Autoajuda Antiofídica
13.01.09 / Pergunte ao Dogman: Novo Acordo Ortográfico
06.01.09 / Faculdades Mentais


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