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Da Falta
de Atenção nos Condomínios
Quase
todos os dias, há mais de dois anos,
pego o elevador com a vizinha do
801. Sempre na mesma hora, pouco
antes das oito da manhã, eu seguro
a porta e ela vem correndo, atrasada,
lá do fim do corredor. Na primeira
vez ela agradeceu, sorriu e disse
um "bom-dia, vizinho" encantador.
Na segunda vez, quando eu me preparava
para retribuir o cumprimento da
manhã anterior, ela entrou
direto, sem dizer palavra, e fez
a viagem até a portaria ajeitando
o penteado no espelho. Virou rotina:
num dia sorria e falava comigo;
no outro me ignorava e seguia muda.
Durante esses dois anos e pouco
me acostumei com seus altos e baixos,
com sua dupla personalidade, com
suas alterações de humor. Quando
nossos horários não coincidiam eu
sentia falta de sua companhia no
elevador, já não me importava se
era dia de cordialidade ou de carranca.
Hoje cedo, tal qual uma trama de
Conan Doyle, o mistério da vizinha
do 801 se esclareceu. Enquanto eu
segurava a porta ela veio correndo,
atrasada. Logo atrás, gritando "peraí
que eu vou também", uma outra, igualzinha,
veio rápido, mais atrasada ainda.
As gêmeas entraram no elevador,
ofegantes. Uma falou comigo; a outra
não.
Da
Superficialidade das Relações
Fazia
algum tempo que não se encontravam.
Ela tirou a blusa, ficou só de sutiã
e saia. Depois descalçou os sapatos,
tão lentamente que ele quase se
ajoelhou para arrancá-los. Tinha
um anel (de prata, com motivos tribais)
no dedo médio do pé esquerdo.
Que merda é essa?
Um anel, nunca viu?
Assim, no pé, só em papagaio.
Eu não acredito que tu nunca
viu, tá se usando direto.
Põe uma meia minha... só
o pé esquerdo, eu te empresto.
Ela o olhou fixamente, durante uns
trinta segundos ou menos. Calçou
de volta os sapatos, no mesmo ritmo
com que os havia tirado. Vestiu
a blusa, ajeitou o cabelo, puxou
um cigarro da bolsa. Ele abriu a
porta, de súbito, apontando o corredor
com um movimento de cabeça.
Fuma lá fora, me faz o favor.
Das
Coisas Simples da Vida
O amor
existe, sim, eu já senti uma vez.
Foi numa auto-estrada, rumo ao norte.
O posto de pedágio se aproximava
e a mulher ao meu lado soltou o
cinto de segurança para pegar as
moedas na bolsa, no banco de trás.
Antes baixou o volume da faixa 1
do meu CD do Keane. Concentradamente,
juntou o valor exato indicado nas
placas ao longo da rodovia e, quando
parei o carro, me estendeu as mãos
em concha, sorriu e disse: "quatro
e setenta e cinco". Foi assim, adventício
como nos filmes. Pela bagatela de
quatro reais, setenta e cinco centavos
e um sorriso eu deixei o amor entrar
em mim. Ela recolocou o cinto, aumentou
a música e seguimos viagem, mas
eu nunca mais deixei ele escapar.
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