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  12.05.2009

 
Maistrêsminicrônicascoladas


Das Sensações Inexplicáveis
Sabe esses dias em que você já acorda cantarolando, abre as cortinas e dá "bom-dia" ao sol e aos pássaros, veste a camisa mais colorida que encontra no armário, toma seu café da manhã demoradamente, sai de casa com um sorriso nos lábios, dança com a faxineira e abraça o porteiro, assovia, pensa no seu primeiro amor, pensa no seu mais recente amor, cumprimenta o jornaleiro, caminha pisando em ovos, repara no céu e nas árvores, se encanta com construções antigas, cheira uma rosa, se equilibra no meio-fio, chega ao trabalho como se fosse a primeira vez, usa a escada em vez do elevador, respira fundo (com os olhos fechados), sorri ao ler seu próprio nome na porta do escritório e se pergunta o porquê de tanta felicidade? Definitivamente, não é como eu estou me sentindo hoje.

Da Influência do Boxe no Trabalho Doméstico
Eu devia ter uns seis ou sete anos, e isso já faz algum tempo, caso não tenham reparado. A tevê estava sintonizada numa luta de boxe. Logo ao lado, minha mãe passava roupa e cantarolava uma canção de Sérgio Bittencourt (Olho a rosa na janela, sonho um sonho pequenino...). Eu brincava com os meus carrinhos Matchbox e, de vez em quando, dava uma espiadinha no combate, no qual um branquelo de calção preto permanecia fixo no meio do ringue, enquanto o outro, um mulato de calção vermelho, girava em torno dele (Se eu pudesse ser menino eu roubava essa rosa...). O locutor, esgoelando-se, avisava que o juiz acabara de descontar mais um ponto do pugilista do corner rubro. Minha mãe, sem levantar os olhos da tábua de passar, me perguntou finjindo interesse: – Ele disse pugilista ou fugilista, meu filho? (E ofertava, todo prosa, à primeira namorada). Com propriedade, eu que já era um ás no boxe, apesar da pouca idade, impostei minha voz aguda para respondê-la: – Acho que ele disse fugilista, porque esse negão fica fugindo o tempo todo. Ela assentiu e continuou cantarolando a melodia, agora sem a letra.

Da Rotina Cotidiana do Dia-a-Dia
Há algumas semanas meu vizinho do andar de cima tentou violentar minha vizinha do lado, uma moça chamada Beatrice, no elevador do prédio. Foi numa tarde de abril, quando ela chegava do trabalho. Ninguém soube dizer o que o motivou. Talvez por ela ser tão sozinha, por não ter um homem em sua vida, por não possuir parentes na cidade, tampouco amigos íntimos. Talvez por ela ser tão misteriosa e até ostentar um certo charme. Segundo o zelador, parece que o pulha passou os braços em volta de sua cintura e apalpou-lhe as nádegas, assim que a porta se fechou. Quis beijá-la, mas só conseguiu levar uma dentada na maçã do rosto, sobre a barba malfeita. Beatrice era tão discreta, tão tímida, que sequer conseguiu gritar suficientemente alto para se fazer ouvir. Quando o elevador parou, ele a empurrou para fora, abriu a braguilha e mostrou-lhe o falo rígido e avermelhado. Depois seguiu viagem, rindo alto. Hoje o edifício amanheceu cheio de policiais e médicos-legistas pelos corredores. Uma viatura e uma ambulância bloqueavam a porta de entrada. Consta que um homem fora encontrado morto em seu apartamento, amarrado à cama. Teve o pênis decepado e introduzido no próprio ânus. Beatrice e eu pegamos juntos o elevador e saímos do prédio em sincronia, cada um para um lado. Ao longe, ainda pude ouvir o zelador reiterando em altos brados: "Já disse que ninguém viu nada, porra!". Ninguém mesmo
.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e às vezes é curto e grosso.
Ganha a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, sugestões e doações pelo e-mail: dogman@uol.com.br

Colunas 2009

05.05.09 / Trêsminicrônicascoladas
28.04.09 / Onde mora o amor?
21.04.09 / Revolução dos Cravos
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24.03.09 / Do Abastecimento de Gás nos Condomínios
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24.02.09 / O Bloco do Eu Sozinho
17.02.09 / Autobiografia Autorizada
10.02.09 / O Crime do Fluss Azul Ativo
03.02.09 / Coisas de Casal
27.01.09 / Solange (So Lonely)
20.01.09 / Autoajuda Antiofídica
13.01.09 / Pergunte ao Dogman: Novo Acordo Ortográfico
06.01.09 / Faculdades Mentais


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