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Das
Sensações Inexplicáveis
Sabe esses dias em que você já acorda
cantarolando, abre as cortinas e
dá "bom-dia" ao sol e aos pássaros,
veste a camisa mais colorida que
encontra no armário, toma seu café
da manhã demoradamente, sai de casa
com um sorriso nos lábios, dança
com a faxineira e abraça o porteiro,
assovia, pensa no seu primeiro amor,
pensa no seu mais recente amor,
cumprimenta o jornaleiro, caminha
pisando em ovos, repara no céu e
nas árvores, se encanta com construções
antigas, cheira uma rosa, se equilibra
no meio-fio, chega ao trabalho como
se fosse a primeira vez, usa a escada
em vez do elevador, respira fundo
(com os olhos fechados), sorri ao
ler seu próprio nome na porta do
escritório e se pergunta o porquê
de tanta felicidade? Definitivamente,
não é como eu estou me sentindo
hoje.
Da
Influência do Boxe no Trabalho Doméstico
Eu devia ter uns seis ou sete anos,
e isso já faz algum tempo, caso
não tenham reparado. A tevê estava
sintonizada numa luta de boxe. Logo
ao lado, minha mãe passava roupa
e cantarolava uma canção de Sérgio
Bittencourt (Olho a rosa na janela,
sonho um sonho pequenino...).
Eu brincava com os meus carrinhos
Matchbox e, de vez em quando,
dava uma espiadinha no combate,
no qual um branquelo de calção preto
permanecia fixo no meio do ringue,
enquanto o outro, um mulato de calção
vermelho, girava em torno dele (Se
eu pudesse ser menino eu roubava
essa rosa...). O locutor, esgoelando-se,
avisava que o juiz acabara de descontar
mais um ponto do pugilista do corner
rubro. Minha mãe, sem levantar os
olhos da tábua de passar, me perguntou
finjindo interesse: Ele disse
pugilista ou fugilista, meu filho?
(E ofertava, todo prosa, à primeira
namorada). Com propriedade,
eu que já era um ás no boxe, apesar
da pouca idade, impostei minha voz
aguda para respondê-la: Acho
que ele disse fugilista, porque
esse negão fica fugindo o tempo
todo. Ela assentiu e continuou cantarolando
a melodia, agora sem a letra.
Da
Rotina Cotidiana do Dia-a-Dia
Há algumas semanas meu vizinho do
andar de cima tentou violentar minha
vizinha do lado, uma moça chamada
Beatrice, no elevador do prédio.
Foi numa tarde de abril, quando
ela chegava do trabalho. Ninguém
soube dizer o que o motivou. Talvez
por ela ser tão sozinha, por não
ter um homem em sua vida, por não
possuir parentes na cidade, tampouco
amigos íntimos. Talvez por ela ser
tão misteriosa e até ostentar um
certo charme. Segundo o zelador,
parece que o pulha passou os braços
em volta de sua cintura e apalpou-lhe
as nádegas, assim que a porta se
fechou. Quis beijá-la, mas só conseguiu
levar uma dentada na maçã do rosto,
sobre a barba malfeita. Beatrice
era tão discreta, tão tímida, que
sequer conseguiu gritar suficientemente
alto para se fazer ouvir. Quando
o elevador parou, ele a empurrou
para fora, abriu a braguilha e mostrou-lhe
o falo rígido e avermelhado. Depois
seguiu viagem, rindo alto. Hoje
o edifício amanheceu cheio de policiais
e médicos-legistas pelos corredores.
Uma viatura e uma ambulância bloqueavam
a porta de entrada. Consta que um
homem fora encontrado morto em seu
apartamento, amarrado à cama. Teve
o pênis decepado e introduzido no
próprio ânus. Beatrice e eu pegamos
juntos o elevador e saímos do prédio
em sincronia, cada um para um lado.
Ao longe, ainda pude ouvir o zelador
reiterando em altos brados: "Já
disse que ninguém viu nada, porra!".
Ninguém mesmo.
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