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1.
No quarto escuro, o céu estrelado.
Ela dorme inocente ao meu lado.
Sonha bons sonhos, decerto. Os inocentes
é que sonham os bons sonhos, pesadelos
são para gente como eu. Amanhece
devagar. Vejo sombras e fantasmas
em todos os cantos. O domingo silencioso
se foi e o sono não apareceu durante
uma noite inteira de maus pensamentos.
Sento na cama, bocejo, esfrego os
olhos, levanto direto para os cacos
de vidro no chão. A preguiça de
juntar um copo quebrado agora, por
vingança, me corta o pé esquerdo.
Enormes olheiras maquiam meu rosto
incolor, insípido, inodoro. Os sentidos
dormentes, a barba por fazer, meu
pé sangrando. Abaixo a calça do
pijama e mijo fora do vaso. Culpas
e cinzas até o teto depois das oito
da manhã. Pulo numa perna só sem
direção. A rotina ainda sonha bons
sonhos ao meu lado, e já é bem mais
do que mereço. Sem motivo, rio de
mim mesmo. Rio, bocejo e volto ao
banheiro. Tiro a roupa. Preciso
de um banho que me lave a alma.
2.
Caminho horas por entre ruas e viadutos.
Chego cansado, carregando as compras
da semana. Silêncio. Abro a camisa,
descalço os sapatos, paro em frente
à porta do banheiro, entro sem bater.
Ela está de pé diante do espelho:
nua, cabelos molhados, colocando
bolinhas coloridas de algodão em
um pequeno frasco de vidro marrom.
Me olha displicente e concentra-se
mais uma vez em sua atividade. Faz
parecer importante colocar bolinhas
coloridas de algodão num pequeno
frasco de vidro marrom. É uma mulher
irresponsavelmente linda antes do
entardecer. Amaldiçoo o momento
exato em que veio morar comigo,
mudar minha rotina, trazer um pouco
de movimento a este apartamento
gelado.
3.
A vida passa cruzando o asfalto.
Ela cochila no banco reclinado.
Cento e quarenta quilômetros por
hora. Aumenta a minha vontade de
bater de frente contra um caminhão
cheio de galinhas. Aumenta a minha
vontade de ver seu corpo coberto
de penas e bosta. O céu escurece.
Não há vagas no estacionamento do
prédio. Ouço vizinhos gritando no
andar de cima enquanto abro a porta.
Ela larga a bolsa e tira as sandálias.
Noto um fio puxado em sua meia fina.
Vou direto à cozinha, estouro um
espumante. Será uma noite de Natal
como todas as outras, provavelmente.
Encho duas taças e fazemos um brinde
ao menino que nasceu em Belém. Lado
a lado no sofá, pousa a cabeça no
meu ombro sem nada dizer. Dorme
novamente depois de dez minutos.
Beijo seu rosto perfumado e acaricio
seus cabelos lisos. Bebo o derradeiro
gole no cristal trincado. Feliz
Natal, meu pedacinho de mau caminho.
4.
Deixo a cabeça cair para trás, sobre
o encosto não muito macio. Começo
outra semana com o pé esquerdo e
o coração cortados. O vento sopra
impiedoso, arrepiando até a última
das partes cobertas de meu corpo
débil e ainda abatido pela gripe
de uns dias atrás. Mesmo longe da
janela aberta, imagino seus passos
cada vez mais distantes, na calçada
da rua deserta. Olhos negros, noite
fria; olhos frios, noite negra.
Não há como evitar, o perfume já
se espalhou pelo quarto. Conheço
a marca, sigo seu rastro desde a
chegada, sempre em flagrante fragrante.
Gostaria de não tê-la recebido na
primeira vez. E descubro que sou
um homem invisível após semanas
de dissimulação e dúvidas. É minha
insignificante existência voltando
à sua natural pequenez. De súbito,
para o vento.
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