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  19.05.2009

 
Pedaços de Cacos Quebrados


1. No quarto escuro, o céu estrelado. Ela dorme inocente ao meu lado. Sonha bons sonhos, decerto. Os inocentes é que sonham os bons sonhos, pesadelos são para gente como eu. Amanhece devagar. Vejo sombras e fantasmas em todos os cantos. O domingo silencioso se foi e o sono não apareceu durante uma noite inteira de maus pensamentos. Sento na cama, bocejo, esfrego os olhos, levanto direto para os cacos de vidro no chão. A preguiça de juntar um copo quebrado agora, por vingança, me corta o pé esquerdo. Enormes olheiras maquiam meu rosto incolor, insípido, inodoro. Os sentidos dormentes, a barba por fazer, meu pé sangrando. Abaixo a calça do pijama e mijo fora do vaso. Culpas e cinzas até o teto depois das oito da manhã. Pulo numa perna só sem direção. A rotina ainda sonha bons sonhos ao meu lado, e já é bem mais do que mereço. Sem motivo, rio de mim mesmo. Rio, bocejo e volto ao banheiro. Tiro a roupa. Preciso de um banho que me lave a alma.

2. Caminho horas por entre ruas e viadutos. Chego cansado, carregando as compras da semana. Silêncio. Abro a camisa, descalço os sapatos, paro em frente à porta do banheiro, entro sem bater. Ela está de pé diante do espelho: nua, cabelos molhados, colocando bolinhas coloridas de algodão em um pequeno frasco de vidro marrom. Me olha displicente e concentra-se mais uma vez em sua atividade. Faz parecer importante colocar bolinhas coloridas de algodão num pequeno frasco de vidro marrom. É uma mulher irresponsavelmente linda antes do entardecer. Amaldiçoo o momento exato em que veio morar comigo, mudar minha rotina, trazer um pouco de movimento a este apartamento gelado.

3. A vida passa cruzando o asfalto. Ela cochila no banco reclinado. Cento e quarenta quilômetros por hora. Aumenta a minha vontade de bater de frente contra um caminhão cheio de galinhas. Aumenta a minha vontade de ver seu corpo coberto de penas e bosta. O céu escurece. Não há vagas no estacionamento do prédio. Ouço vizinhos gritando no andar de cima enquanto abro a porta. Ela larga a bolsa e tira as sandálias. Noto um fio puxado em sua meia fina. Vou direto à cozinha, estouro um espumante. Será uma noite de Natal como todas as outras, provavelmente. Encho duas taças e fazemos um brinde ao menino que nasceu em Belém. Lado a lado no sofá, pousa a cabeça no meu ombro sem nada dizer. Dorme novamente depois de dez minutos. Beijo seu rosto perfumado e acaricio seus cabelos lisos. Bebo o derradeiro gole no cristal trincado. Feliz Natal, meu pedacinho de mau caminho.

4. Deixo a cabeça cair para trás, sobre o encosto não muito macio. Começo outra semana com o pé esquerdo e o coração cortados. O vento sopra impiedoso, arrepiando até a última das partes cobertas de meu corpo débil e ainda abatido pela gripe de uns dias atrás. Mesmo longe da janela aberta, imagino seus passos cada vez mais distantes, na calçada da rua deserta. Olhos negros, noite fria; olhos frios, noite negra. Não há como evitar, o perfume já se espalhou pelo quarto. Conheço a marca, sigo seu rastro desde a chegada, sempre em flagrante fragrante. Gostaria de não tê-la recebido na primeira vez. E descubro que sou um homem invisível após semanas de dissimulação e dúvidas. É minha insignificante existência voltando à sua natural pequenez. De súbito, para o vento.

 

Alessandro Dogman cresceu, viveu e "congelou" nos anos 80.
É ex-músico, ex-atleta, ex-publicitário, ex-comungado e, a partir de hoje, ex-colunista.
Ganhava a vida escrevendo às terças-feiras no Guia Floripa.
Aceita críticas, lamentações e despedidas pelo e-mail: dogman@uol.com.br

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